O Terror da Mordred

O fanatismo de duas ideologias leva ao desastre.

 

CICLO Mordred

 

14

O Terror da Mordred

POR

NILS HIRSELAND

 

IMAGEM DA CAPA

LOTHAR BAUER

 

Título Original:

Terror der Mordred

 

Tradução:

Dirceu Alvir Rudnick

 

Revisão:

Márcio Inácio Silva

Marcos Roberto

 

Formatação final para liberação no Projeto Traduções:

Márcio Inácio Silva

 

Capa em português

Manuel de Luques

 

Conversão para os formatos ePub, PDF e Mobi:

José Antonio

Publicação não comercial

O projeto Dorgon – ciclo Mordred – é uma publicação não comercial do PERRY RHODAN ONLINE CLUB e. V.

 

A tradução para o Português do Brasil é feita com autorização de Nils Hirseland.

 

Perry Rhodan® é uma marca registrada

Verlagsunion Erich Pabel – Arthur Moewig KG (VPM KG), Rastatt, Germany,

Star Sistemas e Projetos Gráficos Ltda., Belo Horizonte, Brasil

 

www.projtrad.org/dorgon

dorgon@projtrad.org

  1. O que aconteceu até agora 

 

Desde setembro de 1290 NCG a organização terrorista autoproclamada Mordred, após anos de operações secretas, passou ao ataque aberto. O Cavaleiro Prateado Cauthon Despair foi responsável pela destruição de cinco escritórios de Camelot.

Os camelotianos em cooperação com a LTL conseguiram infligir as primeiras derrotas a Mordred. Dois líderes do grupo terrorista foram mortos. Em Mashratan, os camelotianos descobriram indicações de um aliado desconhecido da Mordred. Os dorgonenses que, obviamente, são um povo de uma galáxia distante e inexplorada.

Em Sverigor, a Mordred prepara o golpe seguinte, enquanto o saggittonense Aurec, Joak Cascal e Sandal Tolk estão a caminho deste planeta para aprender mais sobre a Mordred na prática. Parece que Sverigor começou a sentir o Terror da Mordred…

 

Personagens principais deste episódio:

Cauthon Despair – O Cavaleiro Prateado que deveria fazer de Sverigor um exemplo.

Aurec – O chanceler dos saggittonenses que não conseguiu se acostumar com os costumes de Sverigor.

Joak Cascal e Sandal Tolk – Eles foram considerados relíquias antigas em Sverigor.

Sanna Breen – A perfiladora da LTL procura por Cauthon Despair.

Wirsal Cell – O camelotiano quis salvar seu ex-aluno.

Nersonos – O sobrinho do imperador dorgonense ensaiou um épico.

Sha-Hir-R’yar – A misteriosa assassina da Mordred vai a Sverigor caçar seres humanos.

 

1.

A Assassina

24 de outubro de 1290 NCG

Nova Malmoe, Sverigor

 

Relâmpagos faziam o céu estremecer e iluminavam a noite. Os primeiros pingos de chuva tamborilaram no corpo cabeludo de Sha-Hir-R'yar. Primeiro lentamente, então a chuva ficou mais forte e derramou pesadamente sobre ela. Seus pelos amarelos e pretos que ficavam nas partes desprotegidas de seu traje de combate leve ficaram encharcados em instantes.

Isso não a incomodava, embora os felídeos geralmente não gostassem muito de água no corpo. Eles limpavam-se de uma forma diferente e ainda eram criaturas extremamente asseadas.

Shahira, como todos chamavam a kartanin que tinha nome muito longo, se estabeleceu no edifício vizinho ao hospital central de Nova Malmoe. A partir dali, ela prepararia sua operação. As ordens de seu senhor e mestre eram claras. A pessoa-alvo estava localizada no quinto andar — a maternidade. A terrana grávida era chamada Zantra Solynger e foi condenada a morte, porque a liderança da Mordred pressupunha que o Cavaleiro Prateado Cauthon Despair não trabalharia corretamente se ele se entregasse a sentimentos românticos e melancólicos. Essa Solynger era aparentemente uma ex-amante do misterioso cavaleiro.

Shahira era praticamente equivalente a isso, embora ela tivesse recebido esse trabalho de seus mestres autoproclamados com a finalidade de recolher informações pessoais sobre o Número Dois da Mordred.

Além disso, Shahira desprezava a Mordred. Ela era uma organização dos seres humanos. Os seres humanos mentiam, matavam e não conheciam a moralidade. Mais uma vez o ódio ameaçava dominá-la. Pensou em suas irmãs profanadas e assassinadas. Ela pensou na promessa que uma vez tinha feito a esta terrana. Mentiras e traição vergonhosa! Ninguém veio resgatá-la e as suas irmãs. E suas irmãs pagaram um alto preço. Por um momento, ela se afundou em uma breve meditação. Ela precisava se fechar profundamente ao ódio e a sua busca por vingança. Seu tempo ainda não havia chegado. Ela ainda estava em dívida para com seu senhor e mestre que uma vez salvou sua vida, mas qualquer dia sua dívida de vida expiraria: vida em troca de vida. E, então, ela também lhe apresentaria a conta. Involuntariamente, ela distendeu suas garras e sentiu a dor quando elas perfuraram seu antebraço.

Vida em troca de vida!

Era quase uma amarga ironia do destino que ela estava em um mundo que também desprezava a Humanidade. Alegadamente, ali apenas o indivíduo contava. Supostamente os extraterrestres desfrutavam de direitos especiais. Eles eram autorizados a viver de acordo com seus costumes e tradições. Ali, talvez Shahira pudesse ser uma parte da sociedade. Sim, mas como monstro e absurdo genético. Os seres humanos de Sverigor acreditavam que, com a sua atitude antilemurense e o ódio por sua própria raça, eram as únicas pessoas sãs na Galáxia. Mas agora ela sabia disso muito bem. Mais uma vez, os seres humanos puxaram os fios nos bastidores e estragaram a obra de natureza. Alteração genética, só de pensar nesta maldita ciência, o ódio ameaçava devorá-la novamente.

Todos os seres humanos eram racistas, ou eles acreditavam, como a Mordred, na superioridade da raça lemurense, ou como os sverigornenses, que gostariam simplesmente de abolir as diferenças entre as diferentes raças. Uma criatura como ela, no seu ponto de vista, não tinha uma razão de existir.

Shahira concentrou-se e estudou o hospital iluminado por dentro. Ela sentia um pouco de medo e às vezes alegria. No entanto, muitos sverigornenses não tinham emoções.

Sua confrontante estava há cerca de 10 metros abaixo na ala de maternidade. Ali, as mulheres davam a luz a seus filhos. Shahira corrigiu-se mentalmente. Em Sverigor não havia mulheres, mas somente indivíduos unissexuais.

Ela havia sido avisada sobre essas práticas. Neste mundo, depois que o bebê nascia, era entregue a um robô cuidador de crianças pela autoridade de correção. Ele levava a criança para uma creche. O indivíduo que entregou a criança era liberado depois de um dia, para que ela pudesse trabalhar novamente. Em seguida, a criança era deixada com pais que se encarregavam de cuidar do recém-nascido. O sentimento de família praticamente não havia em Sverigor. Pelo contrário, ele era profundamente desaprovado, de forma que não houvesse famílias naturais. Embora não fosse proibido totalmente, mas nessa sociedade, os jovens não eram bem-vindos nas famílias.

Normalmente, os bebês eram enviados para um cuidador todo o dia, de modo que os pais pudessem trabalhar e as crianças não fossem infectadas pelo “ideário de família” de pais potencialmente ruins. Além disso, em Sverigor era considerado uma desgraça quando um ser era privado de trabalho e as “antigas” tradições uma afronta. Depois de alguns anos, os pais se preocupam mais se os seus filhos eram compatíveis com a profissão. No entanto, por lei, a criação das crianças era reservada a um robô cuidador de crianças.

Em todo o caso, a educação das crianças era raramente deixada com os pais. Especialmente quando as pessoas prestavam atenção aos cuidados, porque as elites queriam impedir uma “terranização” dos sverigornenses.

Nos primeiros anos de vida, as crianças poderiam decidir se elas seriam submetidas a uma alteração de gênero. Assim estas se tornariam hermafroditas. Shahira não aprovava essas manipulações genéticas. Os seres humanos pareciam ser favoráveis a isso. Eles não se esquivavam de nada. Um indivíduo genomodificado de Sverigor era provavelmente melhor para a empresa. O governo provavelmente tinha o objetivo de transformar todas as pessoas algum dia. Isso significava que os gêneros deveriam desaparecer neste planeta, Shahira estaria bem. No entanto, eles seriam bem-educados em um tubo de ensaio.

Shahira concentrou-se em sua missão. Zantra Solynger deu à luz uma criança. Ela estava em um quarto que beirava a parede externa. Shahira poderia executá-la facilmente a partir dali. Um tiro com um radiador térmico explodiria a parede do edifício e destruiria o quarto.

Ela tinha um plano diferente. Shahira ativou seu picopad e chamou seus cúmplices pelo intercomunicador. Alguns minutos mais tarde — quando a chuva finalmente parou — três blues, um gurrado, um unitro e dois naats saíram da escuridão da noite.

O gurrado se apresentou a Shahira e a farejou. Ele fez uma careta, mostrando os dentes afiados. O gurrado parecia estar atraído por Shahira. Mas ela não parecia estar muito entusiasmada com isso.

— Você cheira a humano!

— E você fezes — disse Shahira e rosnou. Ela expôs suas garras e apontou-as ameaçadoramente na direção do gurrado. Com isso, ela deixou claro que ele não estava autorizado a fazer piadas desse tipo uma segunda vez.

— Quanto? — perguntou um dos blues.

Shahira observou o ser de cabeça de prato com dois pares de olhos. Aruerk estava armado até o pescoço. Ele era o líder do clã das “criaturas vermelhas”. Eles dominavam os subúrbios de Nova Malmoe e se beneficiava da justiça frouxa de Sverigor. Porque, com todas as aspirações multiculturais, eles perdoam até os crimes de extraterrestres, de modo a não incomodá-los. Para criaturas como Shahira, essas condições eram ideais.

Esses seres humanos ingênuos. Ou eles são brutalmente inconscientes ou fanáticos melhoradores da Galáxia que acredita que todos os seres são bons. Como se o crime organizado não se ocupasse com negócios lucrativos, simplesmente porque eles tinham uma vida irrepreensível ali. Muitos imigrantes de Sverigor tinham vivenciado em seu mundo, nada mais do que a luta implacável pela sobrevivência. Por que ali deveria ser diferente? Por que eles deveriam confiar nos sverigornenses?

Sverigor era um paraíso para as organizações criminosas. Porque o Judiciário era muito compreensivo em relação aos crimes praticados pelos extraterrestres, eles riam desse sistema político.

A razão mais importante para isso era que o governo e a sociedade jamais admitiam uma falha em seus modelos. Era como uma mãe que não queria admitir que seu filho é deformado. Uma analogia apropriada, no entanto, se ele fosse desse planeta não tinha o mesmo significado.

— Há treze recém-nascidos — disse Shahira. — Vocês fazem como ajustamos e eu cuido de meu objetivo pessoal.

Aruerk riu estridente. O tráfico de crianças em Sverigor era popular. Isso provavelmente era por que as crianças não tinham grande importância neste mundo. Eles queriam adolescentes, nada mais. Em todo caso, os pais não sentiam falta de seus bebês roubados.

Aruerk fez um sinal para Shahira. Ele queria deixar o assunto para trás. Shahira levantou sua Toser1 e apontou para o quinto andar. Ela disparou. O foguete despedaçou a parede do hospital. Segundos depois a fachada se desintegrou.

O gurrado grunhiu, em seguida, deu partida em seu conjunto propulsor. O gângster flutuou para o hospital. Shahira ativou as cargas explosivas com seu picopad. Três explosões atingiram o complexo. As luzes se apagaram. Shahira colocou os óculos e ativou a visão noturna. Agora ela voou com seu gravomódulo para o hospital. Ela não se importa com o que Aruerk e seus homens fariam agora. Eles eram a distração. O destino dos pirralhos era totalmente idêntico ao seu. Eles seriam vendidos como escravos em algum lugar. Aconteciam apenas coisas ruins no universo.

Ela voou através do muro em ruínas e aterrissou. Em todos os lugares criaturas gritavam. Feixes energéticos de armas de energia atravessavam esporadicamente os recintos. Ela sentiu todo o medo. Shahira correu para a sala de parto e expôs suas garras de terconite. Em todos os cantos havia médicos e funcionários do hospital amontoados.

Diante dela estava Zantra Solynger. A criança ainda estava dentro dela. Solynger gritava e se debatia. Por um momento ela hesitou, mas então voltou a encarar o rosto da terrana a sua frente. Mentiras, crueldade sem limites e traição vergonhosa era a essência de sua raça amaldiçoada.

Vida em troca de vida!

Com um sentimento de satisfação infinita ela enterrou suas garras na barriga da mulher humana e rasgou sua barriga. Solynger gritou de dor como um porco. Então ela puxou o bebê para fora, cortou o cordão umbilical e jogou a criança descuidadamente de lado. Se os deuses terranos fossem piedosos ele não sobreviveria. Os gritos se transformaram em um gemido abafado, era hora de terminar a sua tarefa.

— Com os cumprimentos da Mordred, camelotiana! — sussurrou ela e colocou as mãos quase com ternura ao redor do pescoço de Zantra Solynger. Então ela fechou os dedos com as garras estendidas. A mulher viveu apenas mais alguns segundos.

Shahira a soltou.

— Aruerk — chamou ela, enquanto saia do quarto. — Há um pirralho neste quarto.

Ela tinha terminado o seu trabalho. Ninguém ligaria a Mordred ao assassinato. Seu senhor e mestre ficaria satisfeito.

 

2.

Investigações

 

Aurec esperava ansiosamente pela transmissão da IVANHOE. A espaçonave do camelotiano enviaria um pacote de dados para a TAKVORIAN, que continha informações de Ali Judaa el Kerkum em dorgonense. Além disso, uma análise do oficial de ciências Lorif estava anexa.

Além do saggittonense, Joak Cascal, o comandante da IVANHOE, seu amigo de aparência marcial Sandal Tolk, o camelotiano Wirsal Cell e a perfilhadora LTL Sanna Breen encontravam-se na bastante sombria sala de conferências.

Um holograma dividido em duas partes estava na frente deles. Á direita via-se algumas inscrições e símbolos saggittonenses com os quais ele não sabia o que fazer. Á esquerda aparecia à imagem do pos-bi Lorif.

— No dispositivo de armazenamento de dados do coronel Kerkum, encontramos fotos dos artefatos que foram aparentemente descobertos em Mashratan — informou Lorif. — Na verdade, eram fotos e vídeos de uma sala, filmadas muito precariamente.

Então, diante de Aurec se ergueu a referida sala. Ela era velha, empoeirada e escura. Uma grande estátua de uma criatura desconhecida. Que se assemelhava a um pássaro. Um pouco parecido com Sam. Ainda que esta estátua possuísse o corpo de um homem, a cabeça era parecida com a de um pássaro ou falcão possivelmente.

— Loucura — disse Sanna Breen.

— Fique à vontade, minha senhora? — disse Aurec.

— Este é Hórus.

— Você o conhece?

Agora Aurec ficou bastante surpreso. Joak Cascal tossiu. Ele se inclinou para frente e ponteou o cigarro no cinzeiro.

— Hórus é uma criatura mitológica da antiguidade terrana. 7.000 anos atrás, houve a civilização dos antigos egípcios. Eles tinham muitos deuses. Hórus era uma alta personalidade — disse Cascal.

— Na verdade, ele era o filho de Osíris e era considerado um deus na terra — acrescentou Sanna Breen.

Cascal lançou-lhe um olhar significativo. Obviamente ele estava surpreso com os conhecimentos históricos da perfilhadora da LTL.

— A arqueologia sempre me interessou. Além disso, uma amiga minha confiou-me a matéria.

Breen teve que sorrir.

— Denise sempre acreditou que havia mais por trás dos deuses egípcios, como a influência de Atlan.

Aurec concluiu que os artefatos mashratanos encontrados, realmente vieram da Terra. A conclusão óbvia seria de que os mashratanos levaram esses artefatos da Terra para Mashratan. No entanto, esta hipótese tinha uma falha primorosa. Por que os dorgonenses estavam tão interessados por eles? Eles, obviamente, sabiam o significado dos símbolos.

— Lorif, você pode decifrar os hieróglifos? — perguntou Breen.

— Negativo, senhorita Breen! Embora eles se assemelhem aos antigos hieróglifos egípcios da terra, têm algumas diferenças graves. Este documento é mais complexo e extenso. Infelizmente não temos comparações. A tradução dorgonense existia, mas nós ainda não deciframos essa linguagem.

O holograma era um texto em escrita hieroglífica e ao lado mostrava uma fonte dorgonense, da mesma forma, ilegível para Aurec. Então vocês estão tateando no escuro.

— Tudo bem, vamos tomar medidas imediatas. A IVANHOE com a CAROLINA DO NORTE devem continuar as buscas por esta espaçonave dorgonense — ordenou Cascal.

Ele se virou para Sanna Breen e sorriu para ela.

— Será que a sua amiga tem algo no baú?

— Denise Joorn é uma conhecida arqueóloga. Ela publicou vários trabalhos universitários sobre história e arqueologia. Ela prefere o trabalho de campo, sabe lidar com um radiador energético, não grita ao ver uma aranha gigante e é muito atraente. O que você ainda quer saber, coronel Cascal? — perguntou Sanna Breen asperamente.

— Bem, na verdade, eu queria saber se ela pode dar uma olhada nesses textos.

Sanna Breen ficou em silêncio. Cascal parecia suprimir uma risada. Mas seus olhos cinzentos piscaram sugestivamente. Por fim Breen consentiu em entrar em contato com Denise Joorn, o mais cedo possível. Se havia realmente um paralelo entre estas escavações e uma antiga cultura terrana, então um especialista seria útil.

Aurec agradeceu a Lorif pela ajuda. Xavier Jeamour, o comandante da IVANHOE e Henry Portland, o comandante da CAROLINA DO NORTE aguardaram mais instruções de Joak Cascal. Em nome da LTL Sanna Breen ratificou as ordens de Cascal para a CAROLINA DO NORTE.

Em seguida, os dois capitães de naves espaciais finalizaram a ligação e partiram em busca da misteriosa nave águia dorgonense.

 

*

 

Duas horas depois, Aurec entrou na estação de comando redonda existente no coração da TAKVORIAN. A agitação prevalecia nos dois andares da central de comando. No meio da sala, Joak Cascal estava sentado na cadeira de comando. Em torno dele estavam os principais membros da tripulação em seus consoles.

Em uma espaçonave camelotiana a navegação, localização, radiocomunicação, sistemas de armas e a ciência eram funções principais. Embora cada departamento ainda tivesse uma sala separada, um comandante sempre queria ter seu pessoal próximo um do outro. As únicas exceções eram as funções técnicas. Os controles de propulsores, de fornecimento de energia, sintrônica, armas e campos defensivos estavam alojados em diferentes andares.

Há dez metros de distância do centro da ponte ficavam as poltronas anatômicas adicionais para visitantes. Aurec sentou ao lado Sanna Breen e Wirsal Cell.

— Nós chegamos a Sverigor — informou Cascal e assobiou entusiasmado. — Este mundo está associado a boas lembranças.

— Sverigor é famoso por sua beleza natural deslumbrante — disse Wirsal Cell.

— E por suas belas mulheres — adicionou Cascal.

— Não se alegre tão cedo, coronel Cascal. A sociedade e a política de Sverigor mudaram significativas desde o fim da ditadura Monos — esclareceu Sanna Breen friamente.

Cascal assentiu.

— Obviamente eu pesquisei isso.

Apesar de Aurec estar bem preparado, a maioria dos mundos, ainda, era estranha para ele. Sverigor era uma colônia terrana. No século 25 da era cristã, antigos colonos de um grupo étnico chamado Suécia tinham se estabelecido neste mundo com natureza deslumbrante e criaram um paraíso pacífico ao longo dos séculos. Sverigor sempre foi um planeta aberto da Galáxia e procurado para reduzir diferenças entre terranos e outros povos. Os sverigornenses tinham — como todas as outras colônias — sofrido com a ocupação dos lares. Nos primeiros dias do NCG tinham sido considerados como ardentes defensores da nova era e de uma Via Láctea unida. Mas, devido ao isolamento durante a ditadura de Monos, a sociedade mudou. Foi desenvolvido um ódio por sua própria raça e o desejo de coordenação total da vida.

Sverigor tinha se comprometido a lutar contra o racismo e a discriminação, e via sinais das mesmas em toda parte. O que era em si uma ideia nobre e absolutamente correta, no entanto, parecia um sistema ditatorial de segmentação. No início, esta ideologia se desenvolveu lentamente, mas de forma constante. Após a LTL tornar-se mais conservadora, adotaram aspirações totalmente inflamadas de se afastarem da cultura, das tradições, das regras estabelecidas há muito tempo e dos pontos de vista terranos. Parecia que tudo o que anteriormente tinha sido considerado como bom, era agora profundamente desaprovado.

Como um espectador de outra galáxia, Aurec sentiu todas as leis e restrições bastante confusas e perigosas. Ele estava curioso para ver o que encontrariam em seu caminho por este mundo. Afinal de contas, eles esperavam encontrar ali vestígios da Mordred.

A era Monos tinha sido obviamente um revés para muitas civilizações da Via Láctea. Mesmo 143 anos depois, ainda, eram sentidos os efeitos posteriores.

 

3.

O mundo paradisíaco

 

Cauthon Despair recebeu a notícia da morte de Zantra Solynger de forma quase apática. Um bando de ladrões extraterrestres tinha roubado bebês do hospital, no qual Zantra tinha sido internada para trazer ao mundo o seu primogênito. Ele era o produto dela e de Ygor, aquele pequeno e belo jovem camelotiano, que ela preferiu em lugar dele.

De alguma forma, o Cavaleiro Prateado ficou aliviado que Zantra estivesse morta. Assim, uma decisão difícil tinha sido resolvida. Naturalmente ele lamentou um pouco a morte dela. Ele tinha amado Zantra ou, pelo menos, pensava assim. Um toque de melancolia e tristeza tomou conta dele. O que teria acontecido se ela tivesse escolhido ele? Se a criança, então, fosse sua?

Era desnecessário ficar se preocupando à toa. Agora não havia nada em Sverigor que, de forma alguma, despertasse sentimentos positivos nele. Certamente, a natureza era bela. Prados verdes volumosos, densas florestas com árvores saudáveis, vales e montanhas deslumbrantes, lagos com águas limpas de cor turquesa. Sim, era um mundo celestial — ninguém viveria nele.

Cauthon Despair deixou a camuflagem em uma microcorveta da tecnologia dorgonense, classe KASKAYA-II. Sha-Hir-R'yar seguia-o silenciosamente. Despair ainda não tinha se acostumado a essa híbrida. Era um experimento genético, um cruzamento entre um kartanin e um terrano. No entanto, não era o resultado de uma noite de amor precipitada entre Ronald Tekener e Dao-Lin-H'ay, mas provinha do laboratório de genética das indústrias Shorne. Willem Shorne realizou pesquisas genéticas proibidas e secretas ao longo de décadas, provavelmente, teria se inspirado no doutor Moreau. Após a morte do velho Shorne, seu filho Michael Shorne continuou a pesquisa de boa vontade. O projeto dos híbridos, no entanto, já estava concluído. Despair acreditava que Sha-Hir-R'yar era a última sobrevivente deste gênero de cruzamento. O Número Quatro provavelmente a tinha salvado e, desde então, era usada como assassina e quem sabe mais o quê.

Sha-Hir-R'yar e Despair, talvez não fossem tão diferentes. Ambos eram aberrações genéticas e solitárias. No entanto, ele evitava falar com ela. Ela era uma assassina. Não mais que isso. Era bem possível que o Número Quatro enviasse ela algum dia para acabar com ele. A liderança da Mordred era um ninho de cobras. Rhifa Hun não tinha mostrado qualquer remorso pela eliminação do Número Sete. E coronel Kerkum tinha matado o Número Cinco como um peão, há poucos dias. Se a aliança entre Rhifa Hun, Mashratan e o igualmente misterioso Número Quatro se manteria por um longo tempo, ele duvidava disso.

Ele desejava que Cau Thon estivesse ali para lhe dar conselhos. A quem ele poderia recorrer? Talvez aos dorgonenses? Mas o contato com eles era muito raro. Principalmente porque era Rhifa Hun e o coronel Kerkum que trabalhavam com eles.

Despair conhecia apenas dois dorgonenses pessoalmente. O legado do imperador Seamus e o comandante militar de suas expedições, almirante Petronus.

Apenas Despair e Sha-Hir-R'yar haviam desembarcado em Sverigor. A tripulação da microcorveta permaneceu a bordo e observava da espaçonave. Despair não queria nenhum grande alvoroço. Sverigor era um mundo bem monitorado. A autoridade de correção mantinha todos os seus robôs meticulosamente atentos, no sentido de cumprir o código de etiqueta de Sverigor. Somente para os seres humanos. Para os extraterrestres, porém, as rédeas eram quase soltas, a menos que os crimes fossem demasiados brutais e muito óbvios.

Suas ordens estavam divididas em duas fases. Em primeiro lugar, eles deveriam esperar a chegada de Aurec, Joak Cascal e Sandal Tolk. Pelas últimas informações Homer G. Adams e Cístolo Khan não viriam para Sverigor. Além disso, os portadores de ativador celular eram considerados persona non grata e criminosos. E Khan, aparentemente, tinha coisas melhores para fazer. Depois de o inimigo ter estado sob vigilância, a fase dois começariam com a destruição do escritório de Camelot e eliminação de pessoas-alvo.

Principalmente, porque Sha-Hir-R'yar era responsável. Despair lamentava ter que matar Joak Cascal e Sandal Tolk. Eles eram seus ídolos, porque eles estiveram em um dos melhores tempos: o Império Solar. Mas essa época gloriosa da história terrana era profundamente desprezada em Sverigor.

Por isso ele sentia pouca simpatia por este mundo. Toda ditadura poderia aprender muito com a metodologia dos sverigornenses. A autoridade de correção era uma rede enorme de computadores sintrônico-positrônicos que exercia o poder real. Nenhuma criatura poderia mais interferir e isso assegurava que a ideologia persistiria ao longo das gerações futuras. Despair desprezava profundamente este auto-ódio pela sua própria raça terrana. Verdadeiramente, eles não teriam condições perfeitas para fazer grandes realizações e ações. Desde que eles estavam em contato com os arcônidas, eles haviam conseguido mais para o bem comum da Galáxia que todos os blues, tópsidas ou unitros.

A atitude dos sverigornenses, por outro lado, era um insulto a todos os seres humanos orgulhosos. Mas era isso que provavelmente pretendiam.

Sha-Hir-R'yar caminhava ao lado dele, em suas roupas de couro apertadas. Mas a felina não tinha nenhum desejo erótico por ele. De modo algum ele considerava a relação entre Tekener e sua gatinha como cosmodevassa, mas pura e simplesmente como perturbada. O portador de ativador celular também não era, o que ele representava anteriormente, se não fosse desta forma, Despair não lutaria ao lado da Mordred.

— O escritório de Camelot está bem guardado. Eles estão preparados para um ataque — disse Sha-Hir-R'yar.

— Sugestão?

— Eu estabeleci contatos com clãs criminosos locais. Eles podem ser úteis para nós.

— Neste caso, a escória da Galáxia será útil para nós. Entre em contato com eles e elabore um plano. Eu darei uma olhada em Sverigor.

Sha-Hir-R’yar deu um ronronar afirmativo, enquanto Despair embarcou em um planador e saiu da microcorveta, voando para Nova Estocolmo.

Cuidadosamente a quimera seguiu o planador com os olhos, é certo que ela tinha que fazer contato com clãs criminosos locais, mas quanto à tarefa principal que seu mestre lhe impôs, ela falhou miseravelmente.

Agora ela já sabia que seria castigada por seu fracasso com dores inimagináveis e humilhação sem limites. Seu amado mestre a punia pela menor falha de formas repulsivas. A ferramenta imperfeita precisava ser endurecida, assim ele dizia.

Oh sim, ele tinha endurecido ela, mas de uma maneira que ele nunca acharia possível. Cada orgia de dor, cada estupro que ela passou, fez dela mais dura que o melhor aço, que tinha sido dobrado várias vezes e reforjado, flexível e inquebrável.

Mas seus pensamentos se voltaram para o Cavaleiro Prateado. Sua reação a seus avanços físicos devassos a perturbara profundamente. Nunca um homem reagiu tão indiferente com a visão de sua manifestação pública de estímulos sexuais. Suas habilidades empáticas permitiram a ela um olhar profundo na esfera dos sentimentos de Despair. Despair sentia-se sozinho e abandonado, ansiava por amor, assim como ela. Ela esperava encontrar uma ganância sexual sem limites, essa era a reação que ela geralmente provocava. Embora ela reconhecesse que ele a rejeitou como criatura não natural, mas, no fundo, ele demonstrou compaixão por ela. Compaixão por ela ser um instrumento passivo da Mordred e compaixão por si mesmo, como criatura traída e alquebrada. Mas ele também tinha se tornado aço temperado, flexível e inquebrável.

Ela decidiu continuar a observar o Cavaleiro Prateado, mas não para dar meios para o seu suposto dono e senhor destruí-lo, mas para investigar se ele merecia ser poupado de sua vingança. E talvez... mas, não, isso seria uma ilusão e desejo, tão bonito como ele era, que não poderiam ter lugar em seus pensamentos.

Com estes pensamentos, ela virou-se para cumprir a sua missão.

 

4.

É mau o que veste verde limão2

 

— Bom dia, existências — O juelziish cumprimentou Aurec, Joak Cascal, Sandal Tolk, Wirsal Cell e Sanna Breen no espaçoporto “Tolerância” de Nova Estocolmo.

Ele estava muito limpo. Tudo brilhava em um branco amarelado alegre. As paredes e o piso estavam impecavelmente polidos. Muitas plantas adornavam o trajeto da esteira rolante até a porta de entrada para o check-in. Primeiro, deram uma rápida olhada em nossos documentos de identidade.

— Vocês foram anunciados e registrados como convidados da semana. Na saída B3 a autoridade de correção está esperando por vocês. No entanto, antes de vocês seguirem nesta direção, eu sugiro que antes vocês vejam um vídeo introdutório com as regras mais importantes de nosso mundo. Ele não leva muito tempo e é obrigatório.

Joak Cascal suspirou.

— Eu já estou ansioso para ver o vídeo.

Ele apanhou um maço de cigarros no bolso de sua calça, mas antes que pudesse acender o cigarro, o juelziish chilreou e levantou a mão de seis membros, assustado.

— É proibido fumar em Sverigor!

— Sério? — perguntou Cascal, irritado.

— Naturalmente.

Cascal tossiu e colocou os cigarros no bolso, mas o blue não ficou satisfeito. Ele estendeu a mão. Cascal compreendeu o gesto e entregou o maço de cigarros ao juelziish.

— Naturalmente você será cuidadosamente verificado antes de deixar o espaçoporto. Além dos cigarros todas as formas de álcool também são proibidas. Drogas alucinógenas são permitidas. Além disso, é proibido levar livros religiosos, símbolos ou dispositivo de armazenamento de dado. Da mesma forma, roupas e símbolos fascistas são proibidos, assim como qualquer coisa que possa violar as culturas de Sverigor.

Aurec juntou-se ao outro com um olhar significativo. Há um monte de regras ali. O chanceler dos saggittonenses acompanhou os quatro terranos para uma sala de projeção. Para alegrar, um bonequinho marchava ao som distorcido de uma marcha sobre o trivídeo.

— Este é Perry Rhodan — disse uma voz abafada. — Imperialista, fascista e ditador da terra. E, além disso, ele é somente um pequeno Perryzinho e também não é o mais brilhante no Cosmo.

Então surgiu um homem gorducho que o narrador apresentou como Reginald Bull. Eles viram o encontro com os arcônidas e de uma forma abreviada, a “conquista da terra sob o regime Rhodan”.

— Os rhodanianos subjugaram os povos da Terra e os obrigou a marchar em sintonia com seus objetivos. Mutantes sádicos atormentavam os adversários e causavam medo e opressão. O lema dos rhodanianos é: atirar primeiro e perguntar depois.

Joak Cascal teve um acesso de tosse, enquanto Wirsal Cell ria sarcasticamente.

— Sem nenhuma oposição política o Império de Rhodan, em poucos anos se tornou um governo cruel e de intolerância ilimitada, construído usando tecnologia moderna. Naquele momento não se levou em consideração às diferenças culturais, crenças religiosas e o sinistro passado da Terra. Rhodan estabeleceu o plano do império e completou o que o ditador Adolf Hitler procurou fazer apenas algumas décadas antes. A partir de então com a velocidade do vento os terranos cobriram a Via Láctea com guerra. Com sua intromissão eles promoveram uma escalada de violência em uma disputa de fronteira relativamente inofensiva entre tópsidas e ferrônios. Vergonhosamente se envolveram na vida dos juelziishs, roubaram seus recursos e travaram uma guerra de expansão sob a liderança de Rhodan. O líder do Universo atacou os aconenses no meio de seu sistema solar e vários séculos mais tarde iniciou o seu maior truque: a guerra contra a galáxia vizinha de Andrômeda. Sem considerar as perdas, com isso ele também colocou em grande perigo a existência pacífica e reclusa dos ulebs, que finalmente foram forçados a guerra. Mas, como em tantas outras vezes terminou em genocídio. Sob o comando de Rhodan civilizações inteiras foram exterminadas.

“O reinado de terror do Império Solar fascista durou cerca de 1.500 anos. E, particularmente, os povos extraterrestres sofreram. Rhodan roubou a tecnologia deles, melhorou-a e acabou usando-a contra eles. Somente por meio — igualmente reconhecido como interferência ditatorial — dos lares que a maré virou. Os pariczanos, um povo colonial dos mehandors, que os terranos — desdenhosamente chamavam de superpesados – tentaram garantir a paz e a ordem. Mas asseclas de Rhodan, como Atlan, lutaram contra eles.”

Aurec não sabia se devia rir ou se afastar horrorizado. Os desenhos absolutamente infantis correram através da imagem. O sangue escorria em todos os lugares, naves esféricas de construção barata explodiam. O narrador denunciou a megalomania de Rhodan e falou de um episódio de paz no início da NCG. Naturalmente, sem dar nenhum mérito a Rhodan. Mas sua ganância e desejo de conquistar o universo levou o Via Láctea a cair na era negra de Monos.

Monos tinha sido o pivô na história recente da Via Láctea. Por quase 700 anos, a Via Láctea foi dominado por ele. Naturalmente o vídeo escondeu que Perry Rhodan foi fundamental para a libertação da Galáxia. Depois de mais algumas ações difamatórias contra os Imortais e o Império Solar, o vídeo foi aparentemente ao cerne da questão.

— Sverigor é um mundo emancipado. Nós nos recusamos a aceitar as tradições fascistas e arcaicas terranas. Em vez disso, nós nos libertamos completamente dos seres humanos. Nós derrotamos o ódio racial e a discriminação. Tolerância, paz, alegria, trabalho aplicado, um ambiente saudável e uma forma de sociedade diversificada e multiétnica caracteriza o planeta Sverigor. Somos orgulhosos disso.

Agora todos os tipos de seres apareciam na tela. Blues, cheborparnenses, tópsidas, swoons e outros povos que Aurec não conhecia. Eles dançaram alegremente através da paisagem e choviam flores coloridas.

— Nós dizemos: fora fascistas! Fora rhodanianos! Fora quem veste verde limão! Aqui não há lugar para o racismo, a discriminação e o imperialismo!

Agora Perry Rhodan, Reginald Bull e imperador arcônida Bostich entraram em cena. Outros sverigornenses colocaram-se a frente deles. Agora, em vez de uma chuva de flores, algo marrom caiu sobre Rhodan, Bull e Bostich. Aquilo caia, enquanto os outros riam. Com a cabeça baixa e encharcada de líquido marrom gotejando, os três “canalhas” apareciam na imagem.

— Bem-vindo a Sverigor. Se você trouxe paz, amor e tolerância para nossa comunidade, então você é bem-vindo. Instruções detalhadas com as leis e regras serão entregues a você na saída. Desejamos-lhe uma estadia maravilhosa.

Com isso terminou este vídeo especial.

— Eles têm um parafuso solto na cabeça — murmurou Cascal e soltou um assobio.

— Outros mundos, outros costumes — disse Wirsal Cell e levantou-se gemendo.

Aurec ficou bastante confuso com este vídeo. Ele precisava saber que os terranos eram aparentemente muito diferentes e não tinha o senso de comunidade que unia os saggittonenses. Os troettenses, holpigonidas, multivons ou varnidenses nunca deixariam de se sentirem como saggittonenses, como membros da sociedade Saggittor. E nunca uma grande massa saggittonenses teria considerado os não-humanos como inferiores. Naturalmente, havia exceções. Em toda sociedade havia dissidentes. Ali, no entanto, toda a população parecia ter desenvolvido um ódio pelos seres humanos. No caminho para a saída brilhavam hologramas nas paredes. O logotipo da LTL era mostrado em um círculo vermelho com uma linha atravessando o centro. Cascal disse ao chanceler saggittonense que este era um símbolo contra a existência da LTL. Além disso, o emblema dos arcônidas também se encontrava em um círculo semelhante.

Aurec entendia a rejeição aos sistemas totalitários. Mas equiparar a LTL e o Império de Cristal a eles parecia excessivo. A mentalidade de simplificar e classificar as coisas em gavetas também era um método semelhante a uma ditadura. Por fim eles chegaram à saída. Lá eles foram recebidos por um robô esférico, medido cerca de 50 centímetros, um juelziish e um cheborparnense. A criatura com chifres e três narinas entregou-lhes um cartão de identificação.

— Nós os acompanharemos diretamente ao Comissariado para Assuntos Externos ao Planeta — disse a criatura com pelos rijos cinza-escuro.

Eles foram levados a um planador pintado de azul, amarelo e verde. O voo através dos subúrbios da cidade durou vinte minutos. Aurec olhou pela janela e observou as ruas, rotas de voo e edifícios. Visualmente, a capital de Sverigor em pouco diferia de outras cidades modernas. A arquitetura era variada. Construções afuniladas características dos arcônidas, arranha-céus e edifícios retangulares terranos alternavam com construções em forma de cúpulas dos juelziishs. Ali, no centro da cidade, era densamente povoada. Fora das grandes cidades, os edifícios eram mais baixos, mais espaçosos e com maior harmonia com a natureza.

Eles pararam em um semáforo. À direita deles estava em uma tela flutuante apresentando o trailer de uma novela trivídeo chamada “Ueruebryn3 – O salvador de Terrânia”. Um blue mascarado com todos os tipos de equipamentos técnicos e seu companheiro swoon lutavam contra a injustiça em Terrânia. Neste episódio pareciam lutar contra inconscientes e estúpidos neofascistas do Império Solar, que queriam forçar pequenas crianças juelziishs a permanecer com seus pais em vez de ir para uma creche.

Aurec viu no vídeo, uma série de crianças felizes em um dessas instituições, enquanto as crianças em casa estavam tristes, sozinhas e desamparadas.

— O racismo, o sexismo, a distinção de gênero – dos terranos não tem nada de sagrado, porque uma autoridade sem escrúpulos obriga famílias juelziishs a praticar tradições arcaicas. Mas Ueruebryn vai salvá-los!

O planador seguiu viagem. Aurec pensou um pouco sobre essa série. Em Saggittor isso seria considerado um crime. Os saggittonenses apreciavam e amavam a vida familiar. Eles sentiam como uma bênção e uma honra cuidar dos filhos em crescimento. As mulheres se satisfaziam com isso. E elas podiam ficar muito bravas quando alguém se metia na educação de seus filhos. Aurec achava que uma criança pertencia à sua mãe e ao seu pai. Mas os sverigornenses apresentavam um ponto de vista diferente.

Neste momento, eles chegaram aos edifícios governamentais sem ornamentação. Eles pareciam, em comparação com outros complexos de edifícios e palácios, bastante espartanos. Um grande edifício branco com uma cúpula no telhado. O cheborparnense, o juelziish e o robô da autoridade de correção os escoltaram para dentro do prédio. Joak Cascal parou na frente de uma projeção de informações.

Aurec olhou para ela mais de perto.

Emancipar-se do fardo de sua sexualidade. Alteração de gênero agora! Inscreva-se, tenha uma verdadeira existência sverigornense unissexual e faça sua contribuição para a luta contra o racismo e a discriminação.

Aurec sorriu, enquanto Cascal parecia de alguma forma atordoado.

— Se eles se sentem tão bem com isso, é uma decisão deles — disse o saggittonense e puxou Cascal pela manga.

— Há 1.500 anos, as mulheres daqui tinham orgulho de serem mulheres. E o que tinha de garotas bonitas aqui...

— Atenção. Indivíduo Joak Cascal é penalizado em 50 galax — rosnou o robô de correção.

— O quê? Por quê?

— Você usou a palavra mulheres. Esta consta no índice de proibição do código de etiqueta de Sverigor. A palavra mulher é pejorativa e discriminatória, porque especifica um gênero. No seu caso, ele ainda está ligado a declarações chauvinistas que rebaixam a mulher a um objeto sexual.

O veterano do Império Solar corou. Ele estava prestes a responder, mas seus lábios permaneceram fechados. Aurec ficou feliz com isso, de outra forma Cascal provavelmente ainda perderia uma fortuna. Então ele entregou ao robô os 50 galax.

— Dinheiro não existe em Sverigor e é proibido. Cada indivíduo tem um cartão de crédito que é implantado no pulso. Este é geralmente conectado com a autoridade de correção, de modo que a cobrança é realizada automaticamente. Os visitantes podem pedir um cartão no centro de turismo e carregá-lo — esclareceu o robô.

— E o que eu devo fazer agora? — perguntou Cascal.

— Eu o levarei preso até que a soma e mais uma taxa de manutenção seja paga. Sigam-me, por favor, existência Joak Cascal.

— Você está brincando? Eu não vou a lugar nenhum.

Neste momento a cheborparnense interferiu e tentou persuadir robô de correção a ser indulgente. Em contrapartida, o juelziish olhou para o seu cronógrafo e suspirou estridente.

— Nós temos prazos a cumprir — ele se virou, visivelmente irritado.

— Que tal se você falasse com essa coisa de metal, Sr. blue? — disse Cascal, chateado consigo mesmo.

— Atenção! — roncou o robô novamente. — Você usou a palavra blue. É um insulto para um sverigornense com origem imigrante juelziish. Sua punição será aumentada para 5.000 galax.

O juelziish deu um gemido e parecia um pouco desanimado.

— Como pode me insultar tão cruelmente? Não havia mais nada a esperar de uma relíquia do fascismo. Sinto-me tão mau com todo racismo das criaturas verde-limão.

— Agora eu não posso fazer mais nada pela existência — murmurou a cheborparnense.

Depois de alguns instantes chegou um grupo de outros seis robôs com os radiadores levantados. Aurec olhou para os outros. Sandal Tolk agia como se ele quisesse bater nos robôs. A situação ameaçava ficar mais complicada.

— Nós estamos em uma missão diplomática. Devido à grande variedade de regras de insultos neste mundo e a falta de tempo de preparação, devido à grave situação, nós cometemos erros. Peço desculpas formalmente em nome do meu grupo — pediu Aurec encarecidamente.

Mas o robô de correção insistiu na detenção.

— Tudo bem, eu vou com ele. Tirem-me de lá rapidamente — disse Cascal.

Rodeado pelos robôs, ele foi transferido para outro planador. Deprimidos, Aurec, Tolk, Sanna Breen e Wirsal Cell seguiram seu companheiro com os olhos.

— Agora que está tudo esclarecido, o comissário para assuntos externos ao planeta espera por você agora. Já estamos atrasados, — disse o juelziish rudemente. Aurec mordeu os lábios. Qualquer resposta provavelmente o colocaria direito na cela vizinha de Cascal.

 

*

 

O gabinete do comissário para assuntos externos ao planeta tinha uma decoração colorida. A mobília era menos pratica, porque foi criada para ser conveniente. Sandal Tolk teve problemas para encontrar a forma de uso das cadeiras estranhamente complicadas.

Aurec ficou parado. Após cinco minutos o sverigornense entrou na sala. O comissário usava um vestido com flores amarelas avermelhadas iridescentes. Aurec avaliou-o como um homem, quando olhou para a barba finamente cortada e o rosto masculino. No entanto, o comissário também tinha um busto substancial grande. Aurec suspeitou de que ele era um sverigornense unissexual. O comissário desfilou batendo os saltos do sapato até um assento e deixou-se cair nele exaltado. Com isso ele expôs mais do que Aurec queria ver. Sem dúvida, o sverigornense era um ser com os dois sexos. Esta forma de gênero universal deveria assegurar contra a discriminação e desigualdade de gênero. Em vez disso, o homem e a mulher eram equiparados socialmente, isso eles conseguiram lentamente em Sverigor. Aurec não tinha nada contra, cada ser deve viver como era melhor para ele. No entanto, os saggittonenses eram muito ligados a natureza. Ele sentiu isso quase como um pecado contra a natureza, abolir esta ordem através da manipulação genética. Por que a natureza tinha, provavelmente, um pouco de pensamento, para introduzir homens e mulheres em muitos povos — e para proporcionar condições diferentes em outras raças. No entanto, quanto maior o conhecimento tecnológico, menor a humildade perante a natureza e maior era a tentação de brincar de Deus.

O comissário não disse nada. Aurec se apresentou e apresentou seus companheiros. O sverigornense com suas unhas pintadas de vermelho não pareceu impressionado.

— Um dos nossos homens... — interrompeu-se Aurec e começou do início. — A existência Joak Cascal foi detida. Eu peço a sua liberação imediatamente.

O sverigornense tossiu.

— Meu nome é Johny Unarov. Eu sou o comissário sênior para assuntos externos ao planeta e vice-chefe para a luta contra o racismo e a discriminação pelas formas de vida não-sverigornenses em nosso mundo.

Umarov cruzou suas pernas cerimoniosamente e balançou-se na cadeira de grife para frente e para trás.

— A permissão que vocês receberam para visitar o nosso mundo, era devido a nossa paz e tolerância. Mas em poucos minutos em Sverigor vocês nos insultaram e nos mostraram como os terranos são selvagens. Por um lado, eu estou feliz em conhecer o chefe de governo de Saggittor, mas, por outro lado, profundamente entristecido e chocado com as palavras grosseiras de Joak Cascal. O pobre juelziish estava perto de um ataque cardíaco. Você consegue imaginar isso?

Umarov suspirou alto.

— Para um juelziish também não é fácil chamá-los de Tsi-yhue`iitschyn. A autoridade de correção que me perdoe. Nós claramente dizemos não ao racismo. Isso Cascal também deveria saber com antecedência.

Sanna Breen que estava ao lado Aurec e sussurrou em seu ouvido o significado da palavra Tsi-yhue`iitschyn. Em juelziish quer dizer tão pálido como se não tivesse pele e era predominantemente uma designação para terranos e outros descendentes dos lemurianos.

— Com todo o respeito. Aqui há algo mais importante do que os sentimentos de um juelziish! A organização terrorista Mordred provavelmente está agindo neste mundo e vai tentar destruir o escritório de Camelot. São assassinos que não hesitam em matar pessoas inocentes. É por isso que estamos aqui — disse Aurec bruscamente.

Mas Jonny Umarov pareceu estar pouco impressionado.

— Nós não temos conhecimento disso. Talvez Mordred tenha de fato uma razão para atentar contra a organização criminosa dos imortais.

Umarov riu brevemente, então ele ou ela ficou novamente tão sério e impassível como antes. Lentamente Aurec estava se aborrecendo com esta palhaçada.

— Eu quero falar imediatamente com o chefe de Estado. Eu sou chanceler de uma galáxia. Eu não trato com qualquer subordinado incompetente!

Aurec odiava ter que recorrer a isso, mas ele não teve outra escolha. Com Johny Unarov eles não iriam longe. O comissário levantou-se e passou os dedos pelo liso cabelo preto.

— Eu decido quem fala com o governo. O seu povo sempre acreditou que todos tinham que dançar a sua música. Mas isso não é assim. Sverigor é um mundo autônomo e autossuficiente. Aqui nenhum representante da LTL decide, nem do Império de Cristal, nem um chauvinista de uma galáxia alienígena. Nós somos abertos a todas as culturas amantes da paz, mas os saggittonenses não parecem pertencer a elas.

Johny Unarov virou-se ostensivamente, afastando-se do grupo. Sandal Tolk soltou um rosnado de desprezo. Sanna Breen e Wirsal Cell pareciam perplexos.

— Pois bem, aparentemente a hospitalidade sverigornense parece ser apenas um rumor. Então nós pagaremos os 5.000 galaxes e dissolveremos o escritório de Camelot.

Aurec olhou interrogativamente para Wirsal Cell, sinalizou que estava de acordo com um leve aceno de cabeça. Para Aurec, ali não havia nenhuma chance de conseguir algo. Obviamente este sverigornense teimoso nem sequer queria começar a falar sobre os perigos da Mordred. Mas foi justamente Sanna Breen quem arriscou uma última tentativa. Ela empurrou Aurec gentilmente para o lado e limpou a garganta.

— É um vestido de seda linar? Parece realmente bonito. É bom que ele voltasse à moda.

Umarov virou-se e olhou para Sanna fazendo beicinho.

— Sim, é de seda linar. Um sonho sobre o corpo.

Breen sorriu.

— Você vê, nós não somos tão diferentes. Eu também gosto de seda linar. Nós realmente precisamos da ajuda de Sverigor e vocês da nossa. A Mordred não deve ser subestimada. Eles são fascistas e imperialistas do pior tipo. A Mordred certamente tem algo contra os humanos unissexuais.

Johny Unarov pareceu pensativo. Constantemente ele brincava com o vestido de seda.

— A LTL certamente tem seus erros. Mas aceitamos o estilo de vida dos sverigornenses. É por isso que estamos aqui. Nós não queremos que o terror de Mordred se espalhe pelo seu planeta — esclareceu Sanna Breen.

Aurec se surpreendeu com as habilidades diplomáticas da perfiladora da LTL. As armas de uma mulher não deviam ser subestimadas, mesmo que não fosse permitido dizer isso em voz alta em Sverigor. Mas seus pensamentos eram livres.

— Vou ver o que posso fazer. É melhor você acertar primeiro a situação com vossa existência Joak Cascal. Troquem seu dinheiro em um banco. Então você receberá o chip. Em seguida, me procure novamente.

— Obrigado — disse Sanna Breen e deu um largo sorriso ao sverigornense.

Aurec não pode deixar de fazer um breve aceno de cabeça.

 

*

 

A noite estava abafada. Cauthon Despair não percebeu nada disso em seu traje de combate climatizado. No entanto, ele foi informado sobre as condições do tempo pelo traje. Despair e Shahira estavam em um subúrbio de Nova Estocolmo. Ali, quase não viviam seres humanos. Este distrito era governado por gangues de blues e tópsidas. Ali, provavelmente, também ficava a caverna dos contatos de Shahira. Despair notou que as ruas e edifícios estavam em uma condição pior. Aqui também não havia nenhuma patrulha de robôs da autoridade de correção.

Um jornaleiro flutuante totalmente mecânico oferecia a última edição em mídia para download ou em um leitor.

Despair leu as últimas notícias:

Supermegainteligentes! juelziishs com cabeça pequena deixam para trás seres humanos — de acordo com estudo recente, independente da educação, os juelziishs são mais inteligentes do que os seres humanos e melhores estudantes, empresários e trabalhadores.

 

Jflr, Sulybylli e Chrok-Sor mistura de Terra mufla — a força alienígena assentada no distrito dos seres humanos em Nova Malmoe — um distrito que traz ao presente muito charme, sagacidade e inteligência.

 

Revelação: Iratio Hondro odiava alienígenas e simpatizava com Perry Rhodan — revelações exclusivas de cientistas e historiadores modernos desmascararam a ideia perniciosa de Hondro e mostra que há três mil anos, Rhodan teve relações sexuais com noiva fascista.

 

Novo estudo: Comer carne torna você gordo e estúpido! O consumo de carne verdadeira torna as criaturas gordas, feias e encolhe o cérebro.

 

Pauly Nemak: os humanos não se lavam!

 

Despair superou o desejo de destruir o jornaleiro robô. Pois esta construção mecânica não tinha culpa, mas os jornalistas que escreviam esses artigos inflamatórios sim. De uma maneira ingênua e grotesca a Humanidade ficou doente. Mas parecia funcionar em Sverigor. Despair ativou seu picopad e enviou um sinal para o cruzador. Shahira informou ao Cavaleiro Prateado que estavam no bairro das criaturas dos clãs vermelhos. E ela já se juntou a uma multidão de blues que estavam brincando com as suas armas e fazendo ruídos depreciativos.

Um grupo dirigia-se propositadamente na direção dele. O líder, Aruerk, era um blue alto. Ele estava acompanhado por um gurrado e um unitro.

Despair não tinha nada contra as diferentes raças da Galáxia. Eles só precisavam aceitar apenas o seu papel de subordinados. A Humanidade foi escolhida para liderar. Os blues, tópsidas e outros simplesmente tinham de aceitar isso.

— O que esse ser humano quer aqui? — perguntou o gurrado provocando.

— Ele é um dos meus clientes — disse Sha-Hir-R’yar.

— Eu não gosto da armadura. Dispa-se. Vamos lá, — chilreou Aruerk, apontando o dedo para Despair. O Cavaleiro Prateado não se impressionou. Os outros sussurravam.

— Vamos, retire suas roupas — exigiu um segundo blue. O grupo começou a rir. Eles zombavam de Despair.

— Provavelmente ele é tão feio que não se atreve? — disse o gurrado e mostrou os dentes. — Não se preocupe, estamos acostumados à visão lamentável dos seres humanos.

Cauthon respirou fundo e ficou imóvel. Ele parou e esperou o próximo passo dos membros do bando. Para Sha-Hir-R'yar a situação parecia interessante de assistir. Presumivelmente, ela não podia ajudar se não quisesse que Despair fosse humilhado pelas criaturas vermelhas. O gurrado correu para Despair e queria que ele, obviamente, retirasse a armadura de seu corpo. Mas sua mão agarrou em um campo de energia da armadura que Despair acabará de ativar. A energia percorreu através do corpo do gurrado. Ele tremia, tentou em vão para se libertar, mas ele não tinha chance. A fumaça subiu, o casaco pegou fogo. O gurrado foi carbonizado lentamente, enquanto os outros membros do bando pulavam ao redor de Despair como galinhas assustadas, mas estavam condenados à inação. Aruerk foi o único que permaneceu imóvel. Despair desativou o campo energético. Ele empurrou o gurrado carbonizado para o chão.

— Vocês, criaturas inferiores, não são páreos para a engenhosidade do ser humano. Diga-me, porque Mordred deveria cooperar com vira-latas de rua comuns? — disse Despair finalmente.

— Sha-Hir-R'yar nos contratou. Alguns dias atrás nós invadimos com sucesso um hospital em Nova Malmoe — disse Aruerk e não parecia muito triste com a morte de seu companheiro.

Como ele havia suspeitado. Sha-Hir-R’yar e as criaturas vermelhas estavam por trás do assassinato de Zantra Solynger.

— Então, você massacrou jovens e mães humanas e vendeu as crianças indefesas do mercado de escravos.

Aruerk fez um gesto indiferente.

— E daí? Nossos compradores são seres humanos. Em Sverigor não sentem saudades dos pequenos. Ninguém nos perseguiu. É nossa culpa se os seres humanos sverigornenses não gostam de seus filhos?

Despair não sabia como responder a isso. O blue estava certo. Ninguém parecia querer parar esses assaltos e tráfico de crianças em Sverigor. Isso seria completamente indiferente para eles? Eles encorajavam diretamente os criminosos, feliz em ocuparem-se de seus “negócios”.

— Este planeta está verdadeiramente sem Deus — constatou Despair.

O blue riu estridentemente.

— Claro que ele está. Aqui Deus também é proibido para os seres humanos. Não nos insulte por isso. Sverigor é um paraíso para nós. Todos os membros do meu bando vêm de mundos despedaçados. Nós crescemos com a violência e até mesmo dominamos a violência perfeitamente. Por que não devemos viver aqui? Em Sverigor não somos pedintes, que são dependentes dos favores dos seres humanos. Aqui nós somos os senhores e não seus Tsi-yhue`iitschyn.

Despair tomou uma decisão. A ideia de trabalhar junto com esses seres era repugnante para ele. Indiferente se era camelotiano, ser humano, membro de bando de extraterrestres — cada um que estava em Sverigor era um inimigo e condenado. Ele se virou para Shahira.

— Procure os camelotianos e aguarde por minhas instruções.

A assassina fez o que lhe foi ordenado. Aruerk permitiu que ele deixasse seu distrito.

— E agora? Você quer nos levar pelo braço, homem?

— Nós informaremos — respondeu Despair laconicamente.

Um planador de Mordred flutuou para baixo até a praça. Aruerk e os outros deixaram Despair sair. Assim, eles mesmos ganharam um pouco mais de vida.

 

5.

Reabilitação de um homem mal

 

Joaquim Manoel Cascal aninhou-se na cama de aço desconfortável com o colchão irregular em sua cela e ficou olhando para frente. Provavelmente os presos na Bastilha passavam melhor. Porque nesta sala, nada apontava que ele estava no século 13 NCG.

Cascal estudou seus companheiros. Um ara taciturno, um ertrusiano musculoso e um terrano pouco vistoso. Ninguém disse nada, mas lentamente este silêncio deixou o veterano do Império Solar nervoso.

— Por que vocês estão aqui, senhores?

Os três se entreolharam pasmo. Finalmente o terrano magro e pequeno se levantou.

— Meu nome é Denis Emot. O estimado ara é Tricolon Ernest. O ertrusiano chama-se Conroy.

Cascal se apresentou. Os três olharam para ele, incrédulos. Joak explicou sua situação e ele ganhou o olhar compassivo do ara e do terrano, enquanto o ertrusiano andou como um tigre selvagem através da cela.

— Bem, eu estava no Blogger em Galaktonet e tinha chamado a atenção pela elevada taxa de criminalidade — disse Emot. — Então eles me prenderam e acusaram de racismo. Como todos, nós estamos em prisão preventiva.

Cascal voltou seu olhar para o ertrusiano.

— E você, Conroy?

— Eu, senhor, sou um oficial do corpo de libertação, setor aurora. Queremos lançar para fora os bastardos estrangeiros de Sverigor e também todos os benfeitores sociais parasitários. Isso é toda a sujeira de baixa qualidade.

“Pelo menos, este ertrusiano estava corretamente aqui na prisão”, pensou Cascal.

— Isso nos faz companheiros, senhor — disse o ertrusiano e sorriu.

Cascal balançou a cabeça.

— Certamente não. Tipos como você não podem ficar soltos. Não há nenhuma diferença para aqueles que odeiam os seres humanos. Todos eles acreditam que são melhores e podem pisar em outras raças. Nós não somos companheiros!

— É melhor você tomar cuidado! — berrou o ertrusiano e esticou seus músculos. O bíceps do terrano colonial era tão grande quanto ambas as coxas de Cascal juntas. O gigante com o moicano vermelho provavelmente acabaria com Cascal com um ou dois golpes.

— Pare com isso! Isso é completamente indiferente. Em breve, de qualquer maneira, todos seremos condenados e iremos para o tratamento — disse o ara.

— O que você quer dizer com isso?

O ara sorriu amargo. Ele se levantou com um gemido e massageou brevemente suas costas com a mão.

— A mais nova atração da autoridade de correção. Na luta contra o terrorismo, o racismo e a discriminação era submeter os antidemocráticos, os criminosos e os doentes mentais a um tratamento especial. Eu estava envolvido no desenvolvimento médico e agora... — Ele suspirou e olhou para o teto. — E agora a revolução devora seus filhos. Eu queria sair, mas isso naturalmente não funciona assim. É por isso que estou aqui.

— Detalhes! — exigiu Cascal.

O ara deu de ombros.

— Eu estaria em uma prisão de segurança máxima, se eu soubesse os detalhes. Eu era apenas uma pequena peça. A autoridade de correção está trabalhando em um programa abrangente de modificações genéticas e psíquicas dos doentes mentais, a fim de serem reintegrados na sociedade sverigornense. Nós estamos aqui porque a comissão considera que o racismo, o sexismo e todos os outros males são decorrentes de doenças físicas e mentais. Se os criminosos forem tratados adequadamente e reconstruídos genética e mentalmente, eles se recuperarão. Isso é tão simples.

Isso deve ser uma piada de mau gosto. O que o ara falou não é nada mais que uma lavagem cerebral. Um condicionamento em termos de ideologia. Isso não tinha nada a ver com o livre arbítrio. Ele precisava sair dali o mais rapidamente possível. Mas como? Um surto estava provavelmente fora de questão. Ele tinha esperança em Aurec, Sandal e Sanna Breen.

— Não se preocupe, terrano. Em primeiro lugar, você será entrevistado por uma comissão de inquérito. Os inspetores terão uma conversa com você e criarão um perfil psicológico. Então será decidido se você será submetido ao tratamento ou ficará em liberdade condicional — esclareceu o ara.

— Por isso me sinto muito melhor — chiou Cascal.

— Ouvi dizer que a autoridade de correção está trabalhando em algo ainda muito pior — replicou Emot.

Os outros olharam para ele, curiosos.

— Eu ouvi de alguns teóricos da conspiração bem conhecidos que a autoridade de correção está trabalhando em uma nanocultura que controla os pensamentos do portador, relata pensamentos incorretos para o computador central, pode transmitir impulsos de dor e fazer com que todo o indivíduo seja totalmente controlável por um grande computador de correção.

Isso era um pouco longe demais para Cascal. Por outro lado, ele confiaria quaisquer crimes hediondos aos galácticos. Uma vez que todos eram iguais, independentemente de ser terrano, arcônida, blue, tópsida ou aconense. Eles uniam a força criativa para praticar crimes. De qualquer forma, essa era uma novidade que deveria ser passada urgentemente para Adams e a LTL. Mesmo que os teóricos da conspiração fossem a fonte: devemos, pelo menos, verificar isso e não rejeitá-lo como ridículo.

A porta se abriu. Um robô de correção flutuou para dentro.

— Indivíduo Joak Cascal para comissão de inquérito.

O ertrusiano gargalhou.

— Mais tarde você vai desejar que nós jogássemos todo o pacote no conversor, pirralho!

Cascal causou uma impressão calma, mesmo que isso o deixasse com uma aparência diferente.

— Melhor para você e seus companheiros de batalha.

Cascal sorriu para o ertrusiano e depois seguiu o robô.

 

*

 

Joak Cascal sentou-se em uma poltrona formada de energia e olhou para os rostos dos três inspetores. Para sua surpresa, havia dois seres humanos e apenas um blue. Mas isso confirmou sua suposição de que os seres humanos eram a força motriz dessa misantropia. Paradoxal.

A blue se apresentou como Truettyuelin. Ele era o inspetor-adjunto para questões de racismo em centros de detenção. O presidente da comissão era uma mulher. Ela tinha um rosto atraente, anguloso com características faciais de uma pessoa obstinada. Os cabelos louros eram cortados curtos. Ela encarou Cascal com seus pequenos olhos severos. O terceiro membro era um médico, cosmopsicólogo e cientista. Frytzens parecia descendente de Nero. A pele era azul-clara e a testa protuberante ainda era reconhecível.

— Indivíduo Joaquim Manoel Cascal, devido aos incidentes raciais graves você foi condenado a uma pena que você não poderia pagar. Os testes psicológicos e genéticos seguintes serão usados para ajudá-lo a seguir na direção certa — Truettyuelin iniciou o inquérito.

Fritzens digitou apressadamente algumas anotações em seu computador e levantava o olhar para examinar Cascal, a todo momento.

— Você usou palavras discriminatórias para as mulheres e um blue — disse firmemente a terrana chamada Ranata Colfest e fez uma expressão de dor. — Terrível. Não tenho palavras para este tipo de racismo sexista.

Concordando acenando como os ferrônios e os blues.

— Agora nós lhe faremos algumas perguntas. Por favor, responda o mais rapidamente possível — disse Frytzens e iniciou imediatamente.

— Você é um homem?

— Sim.

Balançando a cabeça como os ferrônios. Coldest murmurou um — repugnante — o juelziish suspirou.

— O Império Solar era uma instituição democrática que trouxe progresso e justiça as civilizações da Via Láctea.

— Sim, ele era — respondeu Cascal com fervor.

— Humm, sim, era o que eu pensava — murmurou Fritzens.

Agora apareceu um holograma com um homem elegante, uma mulher com seios grandes e uma tópsida.

— Com qual dos três indivíduos que você gostaria de fazer sexo?

— Como assim gostaria?

Fritzens aguardou por uma resposta.

— A mulh... — Cascal vacilou. — O indivíduo com os seios grandes.

— Eu não suporto esse chauvinismo. Eu estou prestes a ter um ataque cardíaco — queixou-se Ranata Colfest, olhando para Cascal com desprezo.

— Que teste idiota é este, por favor? — perguntou Cascal. — Eu estou em uma missão diplomática. Isto é uma farsa! Queremos proteger Sverigor contra os terroristas e agora isso!

Colfest trovejou com seu punho sobre a mesa.

— Agora cale-se seu atrevido, você é um racista verde-limão! Nós não precisamos de sua ajuda. O que precisamos menos ainda — me perdoem — de homens-porcos dominadores sexuais que envenenam a nossa cura, tolerante, colorida e diversificada democracia multicultural com seu molho marrom.

“Você é um fascista, racista, homofóbico, extraterrestrefóbico e racista perigoso. Você nunca deveria ter sido autorizado a entrar no nosso belo mundo.”

Agora Truettyuelin pediu a opinião do cientista.

— Infelizmente o indivíduo é doente. Eu descobri uma doença mental grave.

— Em uma conversa de dois minutos? — perguntou Cascal, irritado.

— Silêncio — rugiu Renata Colfest.

— Proponho, portanto, o tratamento especial, incluindo a alteração de gênero de modo que o indivíduo seja libertado do preconceito sexual e de gênero.

— O quê? Vocês estão loucos. Ninguém mudará nada em meu corpo e em minha mente.

Cascal quis se levantar, mas a poltrona formada de energia alterou sua estrutura e prendeu os braços e pernas de Joak. Ele estava preso. Um capacete desceu do teto e tudo ficou escuro.

 

6.

A autoridade de correção

 

Aurec caminhavam de um lado para outro sem descanso. O ranger do piso laminado não o incomodava. Sanna Breen estava sentada a poucos metros de distância, acompanhada de Johny Unarov, o nominado comissário sênior para assuntos externos ao planeta e vice-chefe para a luta contra o racismo e a discriminação para as formas de vida não-sverigornenses. Eles esperaram por horas para conseguir uma audiência com o governo. Enquanto isso Wirsal Cell arranjou os 5.000 galaxes e entregou as autoridades competentes. No entanto, disseram que Joak Cascal ainda teria que passar por um inquérito.

O que Aurec poderia fazer? Ele apresentou uma queixa em nome de Saggittor. A LTL se manteve distante. O embaixador da Liga dos Terranos Livres não queria se arriscar com quaisquer complicações diplomáticas por um camelotiano. Aurec não entendia essa indiferença. Aparentemente, ninguém se importava com Camelot e com Mordred. Ninguém queria ter nada a ver com os problemas dos outros e muito menos enfrentar a situação.

Wirsal Cell dirigiu-se novamente a prisão para saber mais sobre o paradeiro de Joak Cascal. Sandal Tolk tinha proposto libertar Cascal em uma ação de comando. Aurec reservou esta opção como último recurso, caso os sverigornenses continuassem a serem tão teimosos. Naturalmente, nenhuma criatura viva poderia morrer.

Aurec sentou-se ao lado de Sanna Breen e Johnny Umarov.

— Oh, vocês me deixam tão desajeitado com seus gêneros. Sanna é tão demonstrativamente feminina e você é masculinamente tão forte. Nós não estamos acostumados a isso.

— É uma maravilha que vocês falam tanto sobre sexo — disse Aurec.

— Bem, como uma questão que possamos discutir. No entanto, apenas existências não sverigornenses assim designadas. Isto é profundamente ofensivo. Assim é a nossa sociedade e isso precisa ser tolerado.

— Então vocês toleram que haja povos em que homens e mulheres tenham orgulho de seu sexo.

Unarov suspirou e olhou para as unhas pintadas. De repente seu intercomunicador cantarolando uma canção de crianças alegre e estridente. Aparentemente era seu toque de comunicação. Após a chamada acústica Unarov informou que os corretores estavam prontos para uma audiência.

Unarov conduziu Aurec, Sandal Tolk e Sanna Breen por um transmissor que os irradiou ao edifício principal do governo. Lá eles foram recebidos pelos guardas de segurança tópsidas na recepção e conduzidos por um corredor sem adornos.

Aurec encontrou muitas coisas que pareciam muito estéreis nos edifícios oficiais. Era muito diferente das casas saggittonenses magnificamente decoradas. Ali, claramente faltava um pouco de vida, um pouco de arte e cultura.

Tudo parecia terrível e pálido. Mas, provavelmente, isso era intencional em uma sociedade onde a uniformização obviamente era muito importante. A única coisa confusa para o saggittonense era essa hipocrisia, por que Sverigor divulgava-se abertamente como cosmopolita, diversificada e tolerante. Mas era como se a sociedade tivesse perdido sua estrutura no caos.

— Percebe-se claramente que você não gosta de Sverigor — disse Unarov para Aurec.

— Perdoe-me, mas o seu mundo é muito estranho. Eu imagino uma sociedade tolerante, multiétnica de forma diferente. Aqui as restrições parecem prevalecer. Onde está a diferença para uma ditadura?

— Nós não matamos. Nós não destruímos. Nós formamos. Nós projetamos e criamos um modelo de sociedade. É sempre difícil para as primeiras gerações se adaptarem a uma sociedade com valores modernos, orientados para o futuro — disse Unarov, convicto.

Aurec permaneceu em silêncio. Sverigor não era do seu agrado. Em sua opinião, uma sociedade podia ser bastante diversificada e tolerante, sem que forçassem os outros a sua doutrina. A vida em uma civilização deve permitir brechas e nichos, de modo que, diferentes seres possam se sentir confortável. Naturalmente tinha de haver diretrizes e princípios morais que todos deveriam seguir e também se identificassem com eles. Se os moradores de Sverigor se sentiam confortáveis, assim como viviam, então Aurec era a última pessoa a questionar isso. Pelos relatórios e pelo que podia observar, parecia que Sverigor era um mundo que se encaixava em duas medidas.

Mas Aurec não estava ali para ditar seu estilo de vida aos sverigornenses. Ele estava ali para avisar os sverigornenses sobre Mordred.

Por fim chegaram a uma sala de conferências espaçosa. No centro flutuava uma mesa de cristal. Ao redor dela sentavam-se os estadistas sverigornenses em poltronas formadas de energia.

Estes são os corretores. Eles são os representantes de Sverigor. Aurec olhou para os quatro humanos, dois juelziishs, um tópsida, um unitro e um cheborparnense.

Depois de trocadas das frases políticas usuais, Aurec assumiu imediatamente a iniciativa.

— Eu não sou um galáctico, mas eu me preocupo com a segurança de sua galáxia. Alguns anos atrás, Perry Rhodan me ajudou altruisticamente a tirar Saggittor de uma grave crise. A honra é que também me faz ajudar voluntariamente a sua galáxia.

Os corretores contemplavam o chanceler saggittonense com olhar incompreensível. O cheborparnense, aparentemente, não se importava, porque ele só lidava com seu picopad e parecia jogar um jogo nele.

Aurec prosseguiu imperturbável: — A Mordred atacou vários estabelecimentos de Camelot e quer cobrir a Via Láctea com terror. Camelot e a LTL reconheceram isso. Nós suspeitamos que A Mordred também esteja ativo em Sverigor e, portanto, pedimos apoio a fim de preservar o planeta do terror.

— A Mordred é, portanto, uma organização de pessoas fascistas. Como poderia ser de outra forma — constatou um dos tópsidas, amargo.

— Em todos os lugares onde os seres humanos estão, corre sangue — acrescentou um dos juelziishs.

— Este privilégio não é um monopólio só dos seres humanos — retrucou Sanna Breen.

Eles não gostaram nem um pouco do protesto de Breen. Ela foi desprezada e instruída a permanecer em silêncio, porque ela nada mais era do que uma oficial de baixa patente da LTL. Só a Aurec foi permitida a palavra como representante de uma nação. O saggittonense não entendia essa hostilidade. Eles eram todos galácticos. De onde veio esse ódio contra os seres humanos?

— Nós, seres humanos de Sverigor, não somos orgulhosos de nossa raça. O fascismo, o imperialismo, a guerra, o assassinato, a ganância, o fundamentalismo religioso, o terrorismo, o racismo e a discriminação são as características que melhor descrevem os povos humanos na Galáxia — esclareceu calculadamente um dos seres humanos. A sensação de Aurec dizia que era uma mulher. Ela era magra, tinha cabelos ruivos e olhos azuis vazios.

— Eu recomendo aos corretores atribuírem à importância correta as palavras de Aurec. Os saggittonenses, terranos e camelotiano me convenceram — interrompeu Johny Unarov, sorrindo para Sanna Breen. Aparentemente, a assistente da LTL conseguiu convencer Unarov. Ele pôs de lado suas reservas e agora entendia claramente a gravidade da situação.

— Agradecemos-lhe gentilmente pela sua recomendação, querido Johnny Umarov — disse um homem velho com longos cabelos brancos. O mais impressionante, no entanto, eram o vermelho encarnado pintado nos lábios dele ou dela.

— Seja o que for que vocês sentem pelos seres humanos desta galáxia, eu acho que a prioridade é a luta contra Mordred. Querem que o sangue seja derramado em suas ruas?

Aurec olhou interrogativamente ao redor. O cheborparnense ainda estava ocupado com seu jogo de computador.

— Vamos considerar as suas preocupações e discutiremos com a autoridade de correção. Nossa polícia cuidará do assunto. Pedimos agora que deixem Sverigor. Nós arranjaremos para que seu amigo criminoso seja liberado num futuro próximo. Nós agradecemos pelas informações e desejamos lhe felicidades no futuro — disse a ruiva e se dedicou ao seu leitor.

Aurec olhou horrorizado para Sanna Breen e então para Johny Unarov. Este parecia visivelmente embaraçado.

— Isso é tudo? — perguntou Aurec.

— Correto. Agora vá — pediu a ruiva novamente e mostrou o princípio de um sorriso.

— Sem cooperação? Sem coordenadas para buscar Mordred em Sverigor?

— Não, Chanceler de Saggittor.

— Chanceleres! — disse Aurec com firmeza.

— Isso me faz lembrar de algo — o cheborparnense deixou de lado o seu picopad. — Apelamos também para que leve os camelotianos com vocês. Revogamos a autorização de residência deles aqui. Se os camelotianos se forem, a Mordred — não terá nenhuma razão para nos atacar.

— Esse é um pensamento muito míope — disse Aurec secamente. Ele sabia que era inútil discutir com essas pessoas.

— Nós em Sverigor nunca pensamos em curto prazo. O espírito de nossa sociedade, logo vai abranger toda a Galáxia. Um dia não haverá mais racismo e discriminação — disse um dos juelziishs.

Neste momento, dois robôs da autoridade de correção flutuaram pela sala. Um deles levou um braço e apontou para a saída. Para os corretores a audiência estava encerrada.

Johny Unarov acompanhou Aurec, Sandal Tolk e Sanna Breen.

— Estas criaturas são teimosas e obstinadas. Eles pregam a tolerância e são intolerantes com outros pontos de vista — disse o bárbaro de Exota Alfa com pesar.

— O que os corretores quiseram dizer com a última frase? — perguntou Sanna Breen.

Umarov hesitou. Ele olhou em volta. Os robôs de correção tinham ido embora, eles estavam relativamente à vontade.

— Bem, nós estamos trabalhando em um projeto para o bem da Galáxia. Logo, a doença do racismo será curada. Vocês precisam entender, especialmente nós, seres humanos, somos muito doentes. Mas se formos bem-sucedidos, isso tudo já não haverá mais. Então todos nós poderemos viver juntos em paz.

Johny Unarov não quis dizer mais que isso. No entanto, Aurec começou a se sentir desconfortável.

 

7.

A decisão de Despair

 

O Cavaleiro Prateado caminhava pelas ruas movimentadas de Nova Estocolmo. Em todos os lugares os sverigornenses comemoravam, porque o dia seguinte era feriado. Embora eles não fossem autorizados a beber álcool, no entanto, as biodrogas eram permitidas oficialmente.

Essa era uma visão estranha. Em algumas ruas, seres humanos andróginos celebravam, já os becos estavam vazios, porque ali era domínio das gangues. No entanto, ainda havia desavisados ou ignorantes que às vezes viravam na rua errada. Despair observou um jovem terrano sendo torturado e espancado por dois tópsidas. Eles jogavam vegetais nas costas dele e se divertiam com a dor que eles infligiam a ele. Não muito longe um robô de correção passou na frente dele e não fez nada. Despair encontrou correspondências na história da Terra antes do início das viagens espaciais.

Não interessa se na jovem América, os latinos e os índios não tinha a proteção da lei ou seguidores da religião judaica eram perseguidos na Europa: as autoridades do Estado não podem desviar o olhar para o outro lado ou ainda exercerem o terror. Ali, a situação era a mesma coisa. Só que não era o ser humano “mau” que cometia os crimes, mas outros povos.

E então essa era a luta sverigornense contra o racismo e a discriminação? Se relacionarmos os terranos com um tipo perverso apenas por seus espancamentos, seremos exatamente iguais?

Então essa era a visão de tolerância desta sociedade? Desviar o olhar enquanto um ser humano era torturado?

Despair continuou caminhando. Ele não interferiu. O terrano era o culpado. Ele, provavelmente, era um estudante ou professor ingênuo que saiu de férias na bela Sverigor e, agora, surpreendentemente descobriu que a vida ali era diferente.

Despair andou por um quilômetro antes de parar novamente. Nesse meio tempo amanheceu. Na rua à sua frente os transeuntes formaram uma aglomeração. Despair aproximou-se e abriu caminho até a primeira linha.

Um homem foi levado para fora da casa. Ele usava algemas de energia. Logo atrás saiu uma mulher — também amarrada. Dois robôs de correção os escoltavam. Instantes depois, duas pequenas crianças humanas foram levadas para fora da casa.

— O que eles fizeram? — perguntou Despair a um dos transeuntes.

— Violação da alteração de gênero — disse este calmamente.

— O que significa isso?

O outro olhou ao redor e sussurrou: — Eles se recusaram a deixar os seus filhos nos centros de cuidados. Os pais abandonaram a profissão para criar os filhos e ela queria ser... dona de casa. Os pais apoiavam a manutenção dos gêneros. Agora eles serão presos e as crianças serão colocadas em um centro de cuidados até receberem novos pais.

— Seu crime, portanto, é tentar ser uma família?

O transeunte riu.

— Você compreende. Além disso, eles não queriam que seus filhos fizessem a alteração de gênero. Naturalmente eles não podem pagar a multa. Em seguida, eles começaram a reclamar. Como isso chegou a nós vizinhos, nós os delatamos.

Despair ficou brevemente chocado. A família foi dividida em duas. Por quê? Não havia nenhuma razão lógica e racional para isso. Eles queriam ser uma família, mas isso era proibido em Sverigor. Uma mulher que queria ser mãe, no entanto, isso não era permitido em Sverigor.

Que mundo desprezível. A cada minuto que passava Despair ficava mais enojado com Sverigor. Nesse meio tempo os transeuntes vaiaram o casal e os robôs e policiais partiram.

Despair cerrou os punhos. Como seria fácil, retirar a sua espada de carit e cortar toda essa gentalha em pedaços pequenos! Despair lembrou-se de uma história do Antigo Testamento. Onde estariam os dez justos de Sverigor?

Esta sociedade era uma experiência fracassada. Ela era completamente inútil. Os sverigornenses fingiam uma tolerância que já existia em muitas partes da Via Láctea. Muitos planetas importantes da Via Láctea já eram metrópoles multiculturais. Ninguém era perseguido ou discriminado em mundos civilizados por causa de sua fé ou preferências sexuais. Então, por que essa rígida e exagerada política de Sverigor?

Ele continuou caminhando e chegou a algo que aparentemente deveria ser uma espécie de clube de jovens. Em todo caso havia muitos jovens blues, tópsidas e gurrados parados na frente de um edifício em ruínas.

Despair ficou curioso e foi até eles.

— Pare hmano. Cmo um kra, Kapsch? — bufou um gurrado, que era duas cabeças mais baixo do que Despair. O Cavaleiro Prateado não sabia corretamente o que a criatura queria dizer para ele com isso.

— Hmano tolo, o qe qer? Idiota! — gritou um juelziish e riu ruidosamente. Os outros se juntaram a ele com risadas medíocres. Aparentemente, isso era um tipo de gíria. Uma linguagem juvenil. Apesar de tudo, estes dois ainda eram articulados. Os outros só grunhiam ou gritavam.

— Pq nos stmos em quatro!

Despair pediu informações sobre este idioma ao seu picosin. O tradutor integrado identificou-o como um tipo de intercosmo de bairro. A linguagem juvenil simplificavam muitas palavras e as uniam. Havia professores que consideravam esse estupro do intercosmo como algo muito interessante e grandioso.

A capacidade de falar e nos comunicar uns com os outros era essencial para a convivência em uma civilização. Para Despair a perda dessa capacidade em nenhum momento era emocionante ou mesmo grande. O intercosmo era a língua na Via Láctea. Um blue o entendia exatamente como um terrano. Esta era uma conquista importante. Mas em Sverigor nada mais surpreendia Despair. Um tópsida puxou sua faca vibradora e seguiu na direção de Despair.

— Você deveria guardar rapidamente a sua faca novamente antes que você se arrependa — ameaçou Despair.

O tópsida estalou a língua da boca e cantarolou ameaçador.

— Altr, perfur e mat — gritou um jovem unitro.

O tradutor traduziu isso com: Alter, perfure-o e o mate.

Despair ficou chocado com a brutalidade dos jovens. Sverigor era muito pior do que Mashratan, que Despair provavelmente tinha considerado até agora como o pior mundo da Via Láctea. Afinal, os mashratanos não eram tão hipócritas.

Despair sacou sua espada de carit. Imediatamente o tópsida deixou cair a faca e fugiu. Os outros também se retiram apressadamente. Despair esperava nada diferente dos outros.

O que ele estava fazendo ali? Esperançosamente, Shahira finalmente encontraria os camelotianos.

O almirante Kolley da VERDUN entrou em contato pelo intercomunicador.

— Senhor, Rhifa Hun quer vê-lo urgentemente. Por favor, retorne à VERDUN.

Despair confirmou e ficou aliviado que ele finalmente podia deixar este maldito planeta.

 

*

 

Despair estava ansioso com as notícias de Rhifa Hun. Ele estava surpreso que o Número Quatro até agora não tinha sido visto. Afinal, por outro lado, ele tinha sua kartanin híbrida como ajudante.

O holograma distorcido de Rhifa Hun ergueu-se diante do Cavaleiro Prateado.

— Enquanto você fazia um passeio turístico através de Sverigor, os nossos agentes realizaram algumas investigações. Tenho notícias perturbadoras sobre a autoridade de correção de Sverigor, — disse o líder da Mordred.

À esquerda da imagem tridimensional de Rhifa Hun foram exibidos dados. Eram informações científicas. Despair não era um especialista, mas era nanotecnólogo e virologista.

— Em Sverigor, um grupo de cientistas, enganados e sob o controle do computador central da autoridade de correção, estão trabalhando em uma nanocultura autorreplicável. Esta espécie artificial opera como uma bactéria ou um vírus. Ela é, obviamente, especialmente concebida para seres humanos. Quando um terrano é atacado por ela, a nanocultura se implanta no corpo e age como um programa independente. Ela se liga a todas as outras nanoculturas através do hiperespaço e, finalmente, ao computador central da autoridade de correção.

Um nanovírus para os descendentes dos lemurenses? Mas com que propósito? Despair ouviu em silêncio as outras explicações de Rhifa Hun.

— Se um ser humano for infectado por ela, a nanocultura pode controlar as ações e influenciar sugestivamente o infectado. Ela pode causar dor ou destruir o metabolismo. No caso de seres humanos a nanocultura só envia informações via hiper-rádio para o computador de correção em Sverigor. Se essa informação for ruim, ele pode influenciar e controlar totalmente uma criatura.

Agora Despair compreendeu. Sverigor queria desenvolver um tipo de vírus que eles queriam distribuir na Via Láctea a fim de poder controlar os seres humanos. Qualquer ser humano que não se encaixar na visão de mundo da autoridade de correção seria reportado. Os pensamentos não seriam mais livres. Se alguém pensar em algo ruim, ele seria punido com a dor. Se ele cometesse um crime, provavelmente receberia um impulso de morte. Ou ela influenciará sua psique e o seu comportamento completamente, assim ele se tornará um zumbi sem alma nos termos da autoridade de correção.

Um plano verdadeiramente diabólico.

Por que a Mordred não pensou nisso?

— Podemos usar essa arma para nós? — perguntou Despair logicamente.

— Valeria a pena considerar, mas o tempo está se esgotando, meu amigo. Minhas fontes me informaram que em poucos dias, um cargueiro com a nanocultura partirá para a Terra. Se ela se espalhar pela Terra, a vida de todos os terranos que vivem na terra, literalmente, estarão nas mãos da autoridade de correção. O berço da Humanidade está em perigo!

— Nossa fonte encontra-se em Sverigor, Senhor?

— Negativo! Eu tenho informações do coronel Kerkum. Ele ouviu a confissão do ativista psicopata Pauly Nemak pessoalmente. Há uma conspiração entre estes terranos loucos que odeiam tanto sua própria raça. Eles querem destruir a humanidade da Via Láctea. Eles acreditam fortemente que não deve haver mais nenhum reino dos seres humanos.

— Então, eles são nossos inimigos mortais — observou Despair sobriamente.

Ele ainda estava tentando lidar com esta notícia. Ele desprezava esses seres humanos que faziam todos os esforços para destruir a sua própria raça. Eles não mereciam nenhuma misericórdia por seu empreendimento vergonhoso e desonroso!

— Então é isso. Estamos em guerra, Despair. Ordeno que dentro de 48 horas você resolva o problema de Sverigor com todos os meios possíveis.

— Eu entendi, senhor! Mas eu preciso de mais reforços com segurança. A VERDUN e suas seis naves espaciais acompanhantes não são suficientes.

A Mordred tinha até agora apenas um couraçado da classe NEO-UNIVERSUM, especificamente a VERDUN! Ainda que a nave tivesse a disposição todos os maiores aperfeiçoamento dos velhos ultracouraçados da classe universo, além de uma variedade de naves auxiliares, cruzadores de transporte e até mesmo couraçados poderosos e com capacidade de combate, poderia ser muito pouco para realizar um bloqueio eficaz de todo o planeta.

Além disso, havia seis cruzadores de combate de 500 metros que, por sua vez, é claro, também tinham naves auxiliares.

Mas Despair precisava impedir que as naves de transportes deixassem a órbita e, se possível, destruir o computador central da autoridade de correção.

Por que não? Por que não aproveitar o momento e usá-lo para parar com essa loucura. Os sverigornenses estavam tão inspirados por seu auto-ódio que eles sempre seriam perigosos. Além disso, eles tinham concebido esse dispositivo de correção. Eles conheciam apenas um objetivo: a implementação da doutrina sverigornense. Extraterrestres e seres humanos andróginos. Então este seria o futuro se a sua nanocultura fosse distribuída sobre os planetas.

Eles fizeram uma declaração de guerra contra a raça humana. Quer fossem terranos, arcônidas, aconenses, mehandors, aras, ertrusianos, epsalenses, plofosenses, zalitas, oxtornenses, livres-mercadores todos eles seriam afetados. Sverigor havia declarado guerra a todos eles.

Aparentemente, só a Mordred sabia disso. Como reagiriam a LTL, Camelot e este saggittonense quando soubessem disso?

Quais eram as principais opções? Mandar uma informação para o Galacticum traria provavelmente pouco efeito. O Império de Cristal provavelmente reagiria muito rápido, mas poderia impedir o transporte? De alguma forma, os fanáticos da correção encontraria uma maneira de transportar as nanoculturas para Terra. Ninguém sabia se havia um antídoto para ela.

Não, o caminho diplomático estava excluído. Despair tinha um problema para resolver ali e agora.

Ele ativou o intercomunicador e contatou Shahira.

— Você encontrou Aurec e os outros?

— Afirmativo. Cascal está na cadeia. Breen está com o comissário para assuntos externos ao planeta no parque da cidade. Os outros estão a caminho de Cascal. Eles não chegarão ao seu destino.

— Cancele o ataque. Uma nova ameaça surgiu. Rapte Sanna Breen e este Unarov, e me avise. Precisamos dela viva.

Shahira soltou uma maldição, mas ela era profissional o suficiente para não questionar suas ordens. Despair teve outra ideia. É possível que os dorgonenses pudessem ajudá-lo. Talvez eles tivessem o conhecimento científico para tornar as nanoculturas inofensivas. Despair enviou um pedido de ajuda para Dejabay, na principal base do mundo Mordred. Eles corriam contra o tempo. Talvez Despair tivesse que se contentar com as espaçonaves disponíveis.

O Cavaleiro Prateado olhou para o planeta Sverigor. Era um belo mundo. Ele parecia tão calmo, imponente e a natureza era vista amplamente do espaço. Mas sua população provavelmente tinha selado seu destino.

 

8.

O tratamento

 

— Saúde!

As batidas das canecas de cerveja adjacentes fizeram Joak Cascal acordar assustado. Onde ele estava? Esta definitivamente não era a sala de interrogatório da comissão de inquérito. Ele estava em um pub escuro e cheio de fumaça de cigarros.

— Venha, Joak! Aproxime-se! — gritou um terrano corpulento e calvo.

Cascal olhou em volta. Ele estava cercado por esses terranos grosseiros.

Você é Joak Cascal, mecânico de planador da Terra. Estes são os seus amigos. É o seu almoço semanal dos amigos fascistas da Terra.

Cascal balançou a cabeça sobre a afirmação em seu subconsciente. Isso não era verdade. Ele era Joaquim Manoel Cascal, ex-coronel da Segurança Solar e agora servia a Camelot.

— Eu faço isso de boca cheia! — balbuciou o gigante ao lado dele. — Os estrangeiros roubam os nossos trabalhos ou vivem do Estado. A maioria não trabalha de forma nenhuma, a não ser em seus sinistros lanches de vermes Muurt4.

— Exatamente! — gritou outro homem. — O que nós faremos quanto a isso. Vamos!

A multidão se levantou. Cascal fez o mesmo. Ele fez isso como se estivesse em transe. O grupo correu para fora e encontrou uma família juelziish em uma rua lateral. Sem aviso, eles atacaram os blues e regozijaram-se com isso.

— Pelo Império Solar — gritou Cascal e acompanhou. O que ele fez? Isso é um absurdo. Esse não era ele. Uma consciência culpada venceu.

Ainda assim você pode desistir. Você renuncia ao racismo e discriminação.

Mais uma vez esta voz surgiu em seu subconsciente. Isso tinha que ser uma parte deste tratamento. Eles tentavam condicioná-lo. Ele tinha que se defender contra ela. O Império Solar não era um bando de fascistas. O Império tinha levado grandes valores pela Galáxia.

Um véu estava diante de seus olhos. Quando ele levantou-se, Cascal estava em um escritório moderno. Uma multidão de rostos olhava para ele.

— O que faremos agora, chefe? — perguntou um terrano.

Cascal olhou automaticamente para os dois homens unitros.

— Que é isso, dois homoaliens. Este faltou em nosso empreendimento. Seus dois homoelefantes podem viver suas perversões em outro lugar.

Cascal sorriu.

— Você está liberado!

O terrano riu e alegrou-se. Eles aplaudiram Cascal. Mas a imagem desvaneceu-se e Cascal estava sozinho no quarto. Agora ele se sentia mal. A culpa o atormentava.

De repente, ele estava deitado em uma cama. Uma loira estava montada sobre ele e gritava de prazer. Até agora, o cenário mais agradável encontrado por Cascal. Após o ato, no entanto, ele empurrou-a para o lado.

— Agora suma daqui. Eu terminei.

Ela olhou para ele, incrédula.

— Você gostou? Não quer me abraçar.

O que esta vaca idiota realmente pensa? As mulheres servem apenas para fazer sexo, cozinhar ou limpar.

— Pode ir esfregar o chão da cozinha — respondeu Cascal irritado e acendeu um cigarro. As mulheres sentem-se sempre tão inteligente, mas elas são completamente nulas e lentas para trabalho. Ela olhou para Cascal ainda confusa. Só agora Joak reparou que o seu seio esquerdo era menor que o direito. Ele atirou uma camisola para ela.

— Vista-se antes que eu me sinta mal.

Ela começou a chorar e correu para fora da sala. Joak relaxou, mais uma vez ele venceu a culpa e o remorso. Como ele podia ser tão mal para a garota?

Seu subconsciente exortou-o a corrigir-se. De repente Cascal estava novamente diante da comissão de inquérito. O capacete voltou para o teto e as algemas formadas de energia se dissolveram. Cascal sacudiu a cabeça.

Cheias de expectativa, as três figuras olhavam para ele.

— Que bobagem foi essa. Isso é tudo? Esta é a sua lavagem cerebral? Eu não sonharia com nenhum desses cenários. Talvez você devesse entender que nem todo terrano é um fascista tenebroso. O universo não é apenas preto e branco.

Os três olhavam inexpressivamente para ele. Fritzens martelou novamente algumas notas no computador.

Cascal se levantou e caminhou furioso pela sala.

— Isso é incompreensível. Vocês vivem como se nós nos encontrássemos em um momento anterior a Perry Rhodan. Por que vocês odeiam tanto os terranos? Perry Rhodan e seus colegas fizeram muito ao longo de muitas gerações. Muito antes de eu vir ao mundo, Rhodan e seus companheiros fizeram de um povo dividido e egoísta, um povo unido: Os terranos! Quantas vezes os terranos apertaram as mãos de outros povos? Quantas vezes eles salvaram a Galáxia? Eu sinto pena de vocês com sua autoaversão. Sua ilusão de igualdade para todos – aparentemente para os seres humanos – os tornou cegos.

Cascal fez uma pausa e respirou fundo. Ele falava furioso. Mas ele acreditava em cada palavra.

— Terranos, arcônidas, blues, tópsidas. Homens, mulheres, hermafroditas e seres sem gênero: Não importa quem, todos somos diferentes. Portanto, um não é melhor do que o outro. Só temos formas diferentes. Isso será sempre assim. E isso é uma coisa boa. Como somos seres individuais, sentimos e pensamos de forma independente e diferenciada. Temos preferências divergentes. No entanto, podemos viver juntos em paz, se nós nos ativermos às regras gerais e não ficarmos constantemente insultado e insistindo egoisticamente apenas em nossos próprios direitos.

Os três inspetores encararam Joak Cascal como se ele estivesse completamente louco. Mas presumivelmente eles também pensavam isso dele.

— Eu estou há apenas alguns meses neste período, mas não gostei dele. Aparentemente, a Via Láctea estava mais avançada antes dessa era Monos. O caminho de Sverigor era provavelmente uma consequência lógica do longo isolamento de muitos mundos na era Monos. Mas ele não estava certo, desculpe-me garotos e garotas. Abolir os gêneros, distorcer a história, fazer as pessoas passarem por lavagem cerebral e reprimir qualquer oposição no nascedouro – isto é uma ditadura. Vocês estão fazendo isso, talvez mais sutilmente do que a Federação Carsuálica ou o Império Dabrifa fizeram no meu tempo, mas no final se trata da mesma coisa: a opressão dos seres vivos. E vocês realmente se atrevem a criticar o Império Solar?

Cascal cuspiu desdenhosamente no chão.

— Cale-se, você é um homem perverso! — rugiu Ranata Colfest. — O que fazemos aqui será agradecido por gerações. Os terranos são um cancro que tem raízes profundas na Galáxia. Nós estamos combatendo ele. Nós carregamos o fardo mais pesado de todos – porque somos seres humanos. Lutamos pela vida e esperamos com nossos atos poder levar uma vida de liberdade, paz, democracia e diversidade as gerações futuras. Uma Galáxia sem um império terrano e sem um Império de Cristal. Seu alarido patriótico confuso é anormal, Joak Cascal!

Agora Truettyuelin também interferiu.

— Neste instante, você ainda não entende que você vive no passado, Joak Cascal. Rhodan trata apenas de poder, táticas de poder e desejo de poder. Suas asneiras sobre os terranos é apenas a glorificação da pureza da raça terrana!

— Isso é um absurdo total! — respondeu Cascal.

— É mesmo? Quantas vezes Rhodan e Bull se sentaram com sanduíches de salsicha de fígado e cerveja em seus porões escuros e maquinavam planos sádicos para o seu império? Inúmeras vezes! Rhodan sempre se passou de homem forte, um líder e senhor da guerra do império cósmico da Humanidade que adora ser tratado como um Deus. Ele só batalha pelo espaço vital e pela destruição das vidas consideradas inferiores. O Império Solar e Rhodan amavam a ditadura, sua lei natural de combate é nada mais do que um apelo aos baixos instintos. O culto a Humanidade, a Rhodan e ao Império Solar é um sinal de atraso mental!

Truettyuelin parecia exausto depois de seu discurso. Cascal não sabia o que mais ele deveria dizer depois disso. Era inútil. Esses seres não tinha entendido nada. Era triste. 1.500 anos atrás Sverigor tinha sido um mundo tão bonito. Sim, naquela época, ele tinha sido um modelo de harmonia e de convivência para muitos povos. Em um tempo em que as tensões entre as nações tinham voltado, Sverigor serviu como um modelo. Blues, tópsidas, terranos e arcônidas viviam juntos em paz e tentavam dar um bom exemplo aos outros. Naquela época, tudo era livre. Os residentes de Sverigor representavam os mesmos ideais e simplesmente tentavam criar um mundo melhor. Os sverigornenses tinham orgulho de ser um povo colonial da Terra. Eles eram conhecidos como um ramo secundário pacífico do Império Solar, que queriam melhorar a seu modo a situação da Via Láctea. Os sverigornenses eram visto como embaixadores dos terranos, para facilitar entendimento entre todas as muitas raças galácticas e vencer os rancores entre muitas espécies.

Um planeta relativamente autônomo com uma bela natureza sendo ideal para isso.

O que teria acontecido com esta bela ideia? Eles haviam degenerado em uma doutrina totalitária.

A ideologia deixou de ser a coexistência pacífica entre os terranos e os outros povos galácticos, passando a ser uma coexistência controlada sem a existência de humanos.

— Vocês envergonham não só o Império Solar, mas também os fundadores da civilização sverigornense!

— Silêncio!

Depois de alguns momentos, o intercomunicador cantarolou. Truettyuelin o ativou. Depois da conversa, ele e Ranata Colfest sussurraram algo. Por fim, ela assentiu e se virou para Cascal.

— Contra a recomendação dos nossos médicos, nós o liberamos do inquérito. No entanto, você deve deixar Sverigor em 24 horas. Seus amigos estão esperando por você na saída. A sessão está encerrada.

Agora Ranata Colfest ficou fria como gelo. Truettyuelin se levantou e saiu da sala com a cabeça baixa, enquanto Frytzens permaneceu sentado imóvel, olhando para o vazio. Um robô guiou Joak Cascal para a saída.

Tão de repente como ele havia sido feito prisioneiro, igualmente, surpreendente, ele estava livre novamente. E, na verdade, Sandal Tolk, Aurec e Wirsal Cell esperavam por ele.

— Essas foram algumas horas difíceis — disse Cascal.

Tolk socou-o afetuosamente no ombro.

— Sverigor é um hospício. Nós deixaremos este mundo.

Cascal compreendeu.

— O escritório de Camelot está sendo desocupado. Os 32 funcionários terão até amanhã para carregar tudo — relatou Wirsal Cell.

— Onde está Sanna Breen? — perguntou Cascal.

— Agora, ela está falando com alguns funcionários sverigornenses. Talvez ela ainda possa alcançar algo, caso contrário, partiremos amanhã junto com os outros camelotianos — disse Aurec.

Cascal não gostou que eles tivessem que sair de Sverigor de mãos vazias. Era lamentável, mas aparentemente inalterável. Esta geração de sverigornenses não queria nenhuma ajuda e tinha primeiro que superar sua crise de identidade. Cascal esperava que Sverigor um dia voltasse a ser aquele paraíso, que tinha sido uma vez.

 

9.

Um novo perigo

 

Cauthon Despair enviou várias corvetas e cruzadores para a órbita de Sverigor. Os campos de camuflagem funcionavam. Enquanto Despair pousava em Sverigor para se encontrar com Sha-Hir-R'yar, as corvetas exploravam as forças dos fortes defensivos e, equipes de agentes e forças especiais começaram a sabotagem de instalações militares e espaçonaves. Sverigor não tinha um grande exército ou frota espacial. Isso beneficiava a Mordred com vantagem.

Desta vez, ele não quis passear pela cidade para conhecer a sociedade sverigornense. Deles, o Cavaleiro Prateado já havia feito uma imagem e os desprezava profundamente. Três planadores da Mordred passaram velozmente através da estrada de voo delineada com boias sinalizadoras. No corpo dos planadores foram pintadas insígnias e símbolos tópsidas. Provavelmente ninguém os impediria. E mesmo se o fizessem — Despair tinha dado ordens para atirar.

Despair chegou à Nova Estocolmo. Sha-Hir-R'yar enviou um sinal. O seu trabalho foi bem-sucedido. O grupo de planadores flutuava em uma velha plataforma industrial no horizonte de Nova Estocolmo. Uma multidão de twonosers vivia ali em condições precárias. Despair não se preocupou com eles. Os twonosers levavam uma vida nômade, tanto na Via Láctea como também em Andrômeda. Um oficial da Mordred explicou para Despair, enquanto eles se deslocavam para o armazém, que os juelziish, as gangues tópsidas e as elites não gostavam dos twonosers, por isso, a comunidade twonoser vivia isolada nessas plataformas.

Os soldados de Despair entraram por primeiro no armazém com paredes e equipamentos enferrujados. Sha-Hir-R'yar esperava por Despair. Sanna Breen e Johny Unarov flutuavam no meio do salão e eram cercados por um campo de imobilização.

— Bom trabalho — elogiou Despair seco e imediatamente virou-se para Johnny Unarov.

— O que você sabe sobre a nanocultura?

— Como? Nada. O que... é isso?

Despair assentiu para Sha-Hir-R’yar. Ela expôs suas garras afiadas de aço terconite e mostrou os dentes.

Despair dirigiu seu olhar novamente para Unarov. Naturalmente isso não podia ser visto, mas, pelo menos, com base no movimento da cabeça, o sverigornense podia saber que Despair estava olhando para ele com expectativa.

— Olá? Eu ainda estou aqui — chamou Sanna Breen e tentou dar um sorriso.

Despair olhou para a mulher. Ela olhou para ele com seus olhos esmeraldas. Sanna Breen tinha olhos bonitos. Despair perdeu-se por um momento neles. Ele poderia passar horas olhando para eles.

— Então agora eu encontrei o lendário Cauthon Despair. O Cavaleiro Prateado em pessoa — disse ela. — Eu sou Sanna Breen, da LTL.

— Eu sei quem você é — interrompeu Despair. — Remova as algemas dos dois.

— Por quê? — bufou Sha-Hir-R'yar.

— Faça isso!

Sha-Hir-R'yar desativou as algemas de energia e o dispositivo antigravitacional com seu picopad. Sanna Breen e a sverigornense caíram no chão, de onde a especialista da LTL se recompôs rapidamente. Ela ajudou Johny Unarov a levantar-se. Despair percebeu somente agora que ele era um hermafrodita. Ele não pensou muito nisso. Agora os seres humanos algumas vezes eram homens outras vezes mulheres. Entretanto tudo era antinatural. Afinal eles eram seres humanos e não halutenses.

Zombando ele olhou para Unarov e se aproximou dele. Mas Sanna Breen estava entre eles e gentilmente tocou seus dedos no peitoral blindado de Despair.

— Por favor, não faça nada com ele.

— Eu sou um andrógino — disse Umarov.

— Esta pobre criatura provavelmente tem informações importantes. A tolerante sociedade sverigornense é tudo menos pacífica. Mas explique a Senhorita Breen, o que está por trás das nanoculturas!

Sanna olhou interrogativamente para Unarov. Mas ele ficou em silêncio. Despair tinha o suficiente. Ele empurrou a terrana para o lado, agarrou Unarov do pescoço e levantou-o. A deformidade se debatia no ar em seu vestido, tentando não sufocar.

— E agora você finalmente tenha a bondade de falar!

— Pare — gritou Sanna Breen e correu para Despair. Sha-Hir-R'yar quis ficar entre eles, mas Despair soltou o sverigornense e conteve a kartanin.

A terrana inclinou-se para o sverigornense que choramingava e acariciou-o suavemente.

— Isso tem algo a ver com as dicas ameaçadoras dos corretores? — perguntou Breen.

Johny Unarov balançou a cabeça, fungando.

— O que eles estão fazendo? Isso tem algo a ver com nós, terranos?

— Claro que diz respeito aos terranos, senhorita Sanna Breen — disse Despair com um toque de cinismo. A bela assistente da LTL e de Cístolo Khan, aparentemente, não tinha ideia dos planos dos sverigornenses. Você terá uma grande surpresa.

— Sanna... nós... vamos ajudá-los — disse Unarov e olhou triste para a terrana.

— Você está doente. Entenda isso, por favor. Você está física e mentalmente doente. Mas temos a cura.

Unarov se acalmou. Seus olhos brilhavam. Ele olhou para Sanna Breen como se quisesse fazê-la feliz. No entanto, a terrana agora se afastava dele. Lentamente, ela reclinou-se e ergueu-se em câmera lenta.

— O que quer dizer com isso? Até que ponto eu estou doente?

— Suas opiniões sexuais são arcaicas. Você acha que é uma mulher. Você acredita nessa brutal separação de gêneros. Você trabalha para um império estelar fascista. Mas não se preocupe, Sanna. Nós temos a solução para todos os seus problemas!

Sanna Breen encarrou o ou a sverigornense atordoada. Ela precisou de alguns instantes para dizer algo. Ela olhou novamente para Unarov incrédula.

— Eu estou doente, porque eu sou uma mulher? Eu sou doente, porque acredito na LTL?

Breen respirou fundo. Despair ficou em silêncio e apreciou a cena. Agora, a assistente da LTL reconheceu o verdadeiro rosto do sverigornense. Seus ideais e visões de uma Via Láctea, na qual os humanos não tinham mais nenhum significado, que pura e simplesmente não correspondia com uma Liga dos Terranos Livres.

Unarov acenou compreensivamente. O sverigornense parecia considerar isso como a banalidade enfadonha. Como se fosse realmente uma doença como a gripe ou diarreia.

Breen recuperou sua compostura.

— E como vocês querem me curar e a todos os outros?

Umarov suspirou exausto e massageou as têmporas. Shahira soltou um rosnado ameaçador. Agora, finalmente, ele apressou-se em responder.

— A autoridade de correção desenvolveu uma nanocultura que colonizará a Terra. Ela afeta todos e provoca mudanças na consciência. O ser humano infectado ficará sob o controle da autoridade de correção. A nanocultura efetuará uma cura do cérebro. O racismo, o fascismo e a discriminação estarão terminados e todo humano será unissexual. Não é legal?

Sanna Breen olhou para Despair.

— E a Mordred apoia este plano?

— Não, nós queremos evitar isso. A Mordred quer um ser humano forte e não um zumbi. A rede de computadores sintrônico-positrônicos de Sverigor é um perigo. A nanocultura deve ser destruída imediatamente. Tome essa figura miserável e informe Aurec e a LTL sobre isso. Ajam antes que sejamos forçados a agir. Mas não há muito tempo!

Sanna Breen olhou para Despair com uma mistura de curiosidade, surpresa e interesse.

— Eu o tenho estudado há meses, Cauthon Despair. Você me surpreende...

O Cavaleiro Prateado ficou em silêncio. Ele tinha que admitir que Sanna Breen o deixava fascinado. Ela era belíssima e inteligente.

— O brutal Cavaleiro Prateado nos últimos meses demonstra decência e nos adverte de um perigo. Humm, eu sei que por trás dessa armadura dura há um coração mole, que não suportou todas as contrariedades de sua infância e adolescência.

— Não exagere, Sanna Breen. Agora vá.

Mas a perfiladora parecia não ter medo de Despair. Ela sorriu para ele, parecia completamente satisfeita com a sua presença. Ela passou a mão lentamente sobre o peitoral de Despair.

— Se você quiser ouvir ou não. Mas para mim você é o homem mais interessante da Via Láctea.

A frequência cardíaca de Despair aumentou repentinamente. Ele mal podia acreditar que uma mulher tão deslumbrante acharia que ele era o homem mais interessante na Galáxia. Será que ela estava realmente falando sério ou isso era apenas baboseira tática?

Despair quase se afundou novamente em seus olhos cor de esmeralda. Ele se recompôs. Eles estavam em lados opostos.

— Agora vá. Leve essa coisa. Você tem 24 horas antes que a própria Mordred resolva esse assunto.

Agora Sanna Breen estava séria. Ela pediu a Johnny Umarov para segui-la. Hesitante o sverigornense se levantou e arrastou-se atrás Sanna Breen com a cabeça baixa.

Despair virou-se para Shahira. Ele observou que ao se cruzarem a kartanin e terrana demonstraram insatisfeitas. Na verdade, isso pouco importava para ele, mas ele queria evitar que a assassina do Número Quatro se deixasse levar por ações precipitadas.

— Agora precisamos dar um tempo aos camelotianos, o saggittonense e a terrana. Os sverigornenses são nossos inimigos. Seu trabalho aqui está feito. Volte para o seu mestre.

Shahira mostrou os dentes.

— Isso foi uma ordem — disse Despair com firmeza.

— Vocês humanos são todos uns vermes sujos!

Com essas palavras floreadas a híbrida deixou o armazém. Despair fez um sinal para dois guardas escoltarem Shahira para a espaçonave. Presumivelmente, seu ego estava arranhado. Ela preferia matar todos os camelotianos, mas a situação agora era completamente diferente. A maior prioridade era a destruição desta nanocultura. Além disso, nenhuma nave de transporte de Sverigor deveria chegar a Terra.

A VERDUN tinha poder de fogo, pequenos couraçados, cruzadores e naves auxiliares suficientes para impedir isso. Junto com as seis espaçonaves acompanhantes, a flotilha da VERDUN era provavelmente a mais poderosa formação de naves espaciais na Via Láctea.

O Cavaleiro Prateado olhou para o seu cronógrafo. Sverigor tinha mais 23 horas e 45 minutos antes que este planeta sentisse o poder de combate da VERDUN.

No interesse da população sverigornense ele esperava que Aurec, Sanna Breen e os outros tivessem sucesso em fazer a autoridade de correção mudar de ideia.

 

10.

Contra o tempo

 

Mal eles tinham saído com Joak Cascal da prisão, um planador se aproximou rugindo. Sanna Breen desceu dele e correu para Aurec, Sandal Tolk, Wirsal Cell e Cascal.

Sob a chuva fria de Nova Estocolmo, com frases curtas e sucintas ela relatou sobre uma nanocultura da autoridade de correção como uma arma contra a espécie humana e do ultimato de Cauthon Despair, o Cavaleiro Prateado.

Aurec não se importava com a chuva, mesmo se ele estivesse molhado. Também não se importava nem um pouco com os zumbidos dos robôs de correção e com a agitação do tráfego da cidade em frente à prisão.

Esses nanovírus, que deveria transformar todos os seres humanos em escravos da autoridade de correção sverigornense, assombraram sua mente. Ele imaginou o cenário se a Mordred atacasse. Então, o terror realmente se instalaria em Sverigor.

— Portanto, as espaçonaves da Mordred estão no sistema — suspeitou Cascal. — Eu colocarei a TAKVORIAN em estado de prontidão e informarei a IVANHOE e a LTL.

Aurec não tinha nenhuma objeção. Eles precisavam agir rapidamente e de forma consistente. A espaçonave da Mordred não só estava, presumivelmente, escondida por uma proteção contra localização, como era um perigo. A nanocultura precisava ser destruída. Eles precisavam assegurar que este vírus não infectasse nenhum ser humano. Mas o que deveriam fazer? Declarar guerra a Sverigor? Aurec, como um chanceler de um reino estelar distante, seguramente não poderia fazer isso. Camelot provavelmente teria que sujar as mãos — ainda que estivesse certo, com que direito um governo, um planeta ou uma administração poderia insistir em prosseguir com um plano tão diabólico?

Ao caminho do planador Aurec fez uma sugestão.

— Eu não posso dizer o que vocês devem fazer. Esta é uma decisão de vocês três. — Aurec olhou para Cascal, Sandal Tolk e Wirsal Cell.

— No entanto, eu sugiro duas tentativas. Joak e Sandal preparem uma operação de comando, que deverá destruir ou desativar as instituições de pesquisa, as naves de transporte e, talvez, o computador principal da autoridade de correção. Enquanto isso, Wirsal, Sanna e eu tentaremos conseguir alguma coisa por via diplomática.

Ele agarrou Sanna Breen pelos ombros. Os cabelos molhados dela estavam presos em sua testa.

— A LTL precisa pensar em um bloqueio. Se nenhuma espaçonave puder deixar Sverigor, nós ganharemos tempo — disse Aurec insistentemente.

A terrana balançou a cabeça.

— A Mordred começará sua ação em 23 horas, Despair está determinado a cumprir isso. Neste tempo, a LTL nunca chegará a uma decisão tão rápida, nem poderá reunir presença militar suficiente no sistema.

— Fale com eles de qualquer maneira — pediu Aurec.

Sanna Breen assentiu e correu para o planador. Os outros a seguiram. Johny Unarov sentou-se no interior.

— Isso é um sequestro — protestou ele. — Eu quero ser levado imediatamente para o meu escritório!

— Você não tem nada a fazer lá. Agora você se comportará bonitinho e falará sobre a localização das nanoculturas — disse Cascal com um sorriso.

 

*

 

Johny Unarov mostrou-se extremamente dispostos a falar. Seu limiar de dor era baixo. Sendo suficiente um jogo muscular de Sandal Tolk. Aurec estava grato por este fato. Eles tinham mais 22 horas. O próximo passo deveria ser uma conversa com os corretores.

Como comissário para assuntos externos ao planeta, Unarov estava bem informado sobre o projeto. A nanocultura era um vírus biomecânico programado para infectar e manipular unicamente o DNA humano. Em primeiro lugar, o programa devia criar uma ligação de hiper-rádio com outros nanos e o computador central da autoridade de correção. Em seguida, os dados de causa seriam recolhidos em primeiro lugar. A manipulação e o controle deveriam, obviamente, ser gradual. Os “piores” casos seriam afetados psicologicamente e fisicamente. Será que alguém pensaria negativamente sobre outra espécie, só para que pudesse sentir dor. Será que alguém se orgulharia de ser humano e aconteceria o mesmo. Mas as nanoculturas possuíam um repertório muito maior. Ela afetaria a psique do portador a tal ponto que ele começaria a odiar sua própria espécie e se tornaria receptivo a ideologia dos sverigornenses. Se o espírito do portador fosse muito forte, então, ainda haveria um impulso de morte, que levaria à disfunção de órgãos. A nanocultura também foi pensada para o futuro. Ela realizaria manipulações no DNA. Haveria duas possibilidades: ela manipularia o corpo do portador até o momento em que ele ficaria estéril — ou se permanecesse com a capacidade de reprodução, o DNA dos descendentes seria alterado de modo que a partir dele só se originasse seres unissexuais ou andróginos. Ali, a autoridade de correção reservou para si a escolha de qual variante empregaria. Ou a completa extinção da Humanidade na próxima geração ou a transformação em uma nova espécie.

A nanocultura se espalharia de forma independente e se multiplicaria também sem ser assistida. A transferência ocorreria pelo contato físico, ar, alimentos ou contato com objetos. Em um mundo como a Terra, com bilhões de terranos, a taxa de propagação seria enorme. Considerando que — assim como o plano original — ninguém viesse, a saber, algo sobre a nanocultura.

Completo o controle físico e mental do portador pelo pensamento e manipulação genética.

A perspectiva da reestruturação DNA condenaria a raça humana à extinção ou para criação de uma nova espécie humana, que seria correspondente mental e fisicamente a Sverigor. Esse era o plano pérfido e cruel da autoridade de correção. Aurec mal podia acreditar que essa ideia realmente tinha vindo de seres humanos.

Quão grande e profundo era o ódio dos sverigornenses contra a sua própria raça, para aprovar uma coisa dessas? Quanto de fervor fanático eles precisavam para serem inspirados que a Humanidade seria a raiz de todo o mal?

Unarov estava firmemente convencido de que os seres humanos estavam doentes. Apenas o modo de vida sverigornense era correto. Os sverigornenses não entendiam nada de tolerância. Uma sociedade só pode funcionar se os seres que vivem nela se respeitam e mantêm uma diretriz comum que viabilize a vida e a segurança conjunta, sem cercear a liberdade individual dos seres vivos.

Essa diretriz, assim deve ser acalentada e preservada por uma lei. Isso só pode funcionar se houver respeito mútuo. Naturalmente, isso deveria ser feito levando-se em conta as minorias, obviamente, nenhum ser deveria ser discriminado por causa de sua raça. Mas era algo que não poderia ser aplicada por meio de uma ditadura, construída sobre leis de repressão, medo, manipulação e controle.

Aurec era um estranho na Via Láctea e agora o destino dos terranos, de repente, estava em sua mão. Suas decisões eram agora mais importantes do que nunca.

Ele olhou para Joak Cascal e Sandal Tolk. Eles olhavam para ele com curiosidade, aparentemente, queriam saber o que ele diria, o que planejava para eles em seguida. Aurec respirou fundo. Tudo o que ele fizesse, poderia estar errado. Mas ele precisava tomar uma decisão. O que Perry Rhodan provavelmente faria agora?

Sanna Breen voltou pálida de sua conversa pelo hiper-rádio com o comissário da LTL, Cístolo Khan.

— E? — quis saber Cascal.

Ela gemeu tristemente.

— Khan não acredita que os sverigornenses querem realmente implementar este plano. Daschmagan quer provas e pediu calma. Eles querem ficar fora disso. Em todo o caso, eles poderiam controlar as naves de transporte sverigornenses e não deixá-las chegar a Terra. Os diplomatas e agentes da SLT deveriam cuidar da situação.

Cascal balançou a cabeça com raiva.

— Eles podem falsificar os dados de origem das espaçonaves. Ou os sverigornenses poderiam enviar a nanocultura para outro planeta.

— Precisamos de uma amostra da nanocultura, com isso os cientistas podem desenvolver um antídoto — sugeriu Aurec.

Agora ele precisava tomar uma decisão. Isso era curioso. Provavelmente a Mordred resolveria seus problemas em pouco menos de 22 horas. Mas a que custo? Se a Mordred tiver tropas e espaçonaves suficientes, ela provavelmente fará Nova Estocolmo em pedaços. Milhões morrerão. Milhões de seres inocentes, porque naturalmente a maioria não sabia nada sobre os planos da autoridade de correção.

Eles não só precisavam prevenir a nanocultura sverigornense, mas também afastar um massacre da população. Eles precisavam proteger seus inimigos declarados de outro inimigo, que neste caso eles queriam até mesmo ajudar.

A situação da Via Láctea era confusa para Aurec.

— Umarov, eu apelo ao seu bom senso e a capacidade de reconhecer que o seu plano levara bilhões à desgraça. Leve-nos em um laboratório. Precisamos de uma amostra da nanocultura.

Johny Unarov fez-se de rogado. Ele olhou amuado para o chão. Sandal Tolk rosnou brevemente e agarrou Unarov pelos cabelos.

— Eu não sou tão brando quanto o saggittonense. Fale ou o seu destino estará selado.

Aurec não sabia se era um blefe ou Tolk queria dizer isso realmente. De qualquer forma, parecia que Unarov tinha sido afetado pelo interrogatório de Cauthon Despair e de Sandal Tolk.

— Estas áreas são de alta segurança. Ali você não pode simplesmente entrar. O complexo laboratório de pesquisa encontra-se profundamente abaixo da superfície. Eles são tão protegidos quanto o computador central da autoridade de correção. Mas no meu escritório existe um arquivo grande. Lá, todas as informações estão armazenadas.

Tolk soltou Umarov e assentiu satisfeito.

— Tudo bem, Cascal e Tolk voltem a TAKVORIAN. Alerta máximo. A Mordred está em órbita em algum lugar com um campo de camuflagem. Controlem de forma que nenhuma espaçonave deixe o sistema ou, pelo menos, registrem-nas. Espero apoio em breve. Assim que tivermos os arquivos, nós voltaremos — esse era o plano de Aurec.

— Não há negociações com os cabeças de ovo? — perguntou Cascal sarcasticamente.

— Mais tarde! Quando falamos com eles, eles serão avisados. Primeiro, o arquivo da nanocultura.

 

*

 

Aurec olhou nervosamente para o cronógrafo. Pouco menos de 21 horas para expirar o ultimato da Mordred. Outra consideração importante ainda foi acrescida agora. Se Aurec falasse com a autoridade de correção, havia uma grande probabilidade de que eles despachassem imediatamente suas espaçonaves com as cargas de nanocultura. Afinal de contas, aparentemente, não era possível enviar o vírus por hiper-rádio. No entanto, Unarov informou que os cientistas da autoridade de correção já estavam trabalhando em uma nova forma de nanocultura. Ele poderia efetivamente ser distribuído pela rede galáctica como uma espécie de vírus através dos canais de comunicação conectados a dispositivos tais como, intercomunicadores, picopads ou sintrônicas, para chegar a todos os lares. Em seguida, eles poderiam passá-lo facilmente ao portador desse aparelho de comunicação.

Aurec esperava que os cientistas não fizessem nenhum avanço bem-sucedido nas próximas horas. Por fim, eles chegaram ao escritório de Johny Unarov. Eles passaram facilmente pelos guardas. Sanna Breen retirou um picopad de seu bolso.

— Um pequeno gadget5 do SLT. A LTL também tem alguns refinamentos técnicos.

Unarov desligou a comunicação verbal com o seu computador e procurou manualmente o arquivo. Depois de alguma hesitação, ele abriu o arquivo e iniciou uma transferência para a sintrônica da TAKVORIAN.

— Caro Johnny — ressoou uma voz mecânica na sala. — Você está transferindo informações secretas. Pare imediatamente.

Umarov olhou buscando ajuda para Aurec e Sanna Breen.

— Continue! — exigiu Aurec.

— Repito, pare imediatamente com a transmissão de dados. Sua ação é incorreta!

Embora a voz mecânica do computador central da autoridade de correção fosse monótona, Aurec acreditou ter ouvido um tom ameaçador.

— Eles me forçaram a isso — gritou Umarov.

— Ligação interrompida. Existência incorreta, a ligação será encerrada.

O computador central desativou a ligação para a TAKVORIAN. A transmissão de dados foi interrompida. Do teto surgiu um radiador energético. Ele apontou para Unarov. O comissário levantou-se de seu assento, mas tropeçou. Ele caiu e rapidamente se levantou. Então foi atingido por um raio energético entre os olhos. Unarov morreu instantaneamente.

Aurec desativou o sinal. Ele e Sanna tentaram sair da linha de fogo da arma estática, embora ela girasse em 360 graus, só podia abaixar em 45 graus. Um pouco mais tarde, a porta se abriu e robôs de correção entraram.

— Nós precisamos ir — gritou Aurec.

— Ainda não — disse Sanna, olhando para o seu picopad.

O robô da autoridade de correção exigiu a rendição imediata de ambos. Ai um planador quebrou a janela. Aurec atirou-se ao chão e puxou Sanna Breen com ele. Os robôs de correção abriram fogo imediatamente. O planador simplesmente virou-se para eles.

Aurec levantou e ficou feliz ao ver o rosto radiante de Wirsal Cell na cabine da máquina voadora.

— Podemos ir agora? — perguntou Aurec.

Breen assentiu.

— Eu tenho o arquivo. O picopad SLT já o tem, foi tirado diretamente do computador de Unarov. Nós podemos fugir!

Aurec ajudou Sanna a entrar no planador. Os robôs de correção aproximaram-se zunindo. Mal Aurec entrou no planador, Cell partiu rugindo. Os robôs voaram atrás deles, mas não os alcançaram devido à velocidade do planador.

No entanto, a alegria não durou muito tempo. Planadores da polícia e robôs maiores estavam em seus calcanhares. Eles disparavam feixes de energia.

Wirsal Cell conduzia o planador abaixo da linha do horizonte de Nova Estocolmo. No entanto, os robôs e policiais não tinham nenhuma consideração pelos pedestres e outros veículos.

— Mais alguns quilômetros ainda — disse Cell.

Aurec olhou para trás.

— É isso que eles pensam também.

Wirsal Cell chamou a TAKVORIAN pelo rádio. Agora seria um bom momento para vir ajuda. A defesa orbital de Sverigor era diminuta e não assegurava uma cobertura completa. A TAKVORIAN poderia passar. Cell dirigiu o planador para cima e voou em zigue-zague em uma cobertura de nuvens.

Os planadores robôs e da polícia se aproximaram. Um feixe energético atingiu o planador. Ele tornou-se mais lento. Outras descargas de energia explodiram em uma parede invisível.

— Nós temos você — resmungou o intercomunicador. Era a voz de Joak Cascal. A TAKVORIAN deve ter levantado um campo defensivo a redor do planador. 25 caças nimrod e 10 microcorvetas da classe KASKAYA voavam ao seu encontro sob fogo constante dos fortes defensivos e espaçonaves sverigornenses. As unidades da polícia mudaram de rota. O planador alcançou uma microcorveta e atracou. Em seguida, o esquadrão da TAKVORIAN retirou-se, alcançando sem danos a nave esférica de mil metros de diâmetro.

A TAKVORIAN acelerou e deixou a órbita de Sverigor. Os sverigornenses interromperam a perseguição a três milhões de quilômetros.

Aurec, Wirsal Cell e Sanna Breen atingiram a central de comando e foram recebidos por Joak Cascal e Sandal Tolk.

— Bons tempos — Breen disse com um sorriso e entregou a Cascal o picopad com informações sobre a nanocultura.

— Vamos enviar as informações sem demora a IVANHOE. Ela está a somente 900 anos-luz de Sverigor — disse Cascal.

— Por favor, para os LTL também. Khan e Daschmagan precisam destas provas.

Cascal concordou e deu a ordem para a sua 1º oficial Coreene Quon. Eles tinham dado um grande passo em frente, mas o discurso não poderia ser de um relaxamento. Aurec sabia o que tinha que fazer a seguir.

 

*

 

Aurec sentou-se em uma poltrona anatômica em uma sala de conferências. Diante dele, ergueu-se o holograma dos corretores.

— Suas ações em Sverigor terão sequelas. Um ato de terrorismo sem precedente — iniciou o cheborparnense.

Aurec acenou.

— Poupe-nos de sua indignação artificial. Nós sabemos de seus planos com a nanocultura. O Galacticum certamente deve estar interessado.

— Você não sabe de nada! — afirmou o blue, desdenhoso. — É a cura. Nada pode pará-la.

— Vocês não entendem a gravidade da situação. A Mordred também conhece seu plano. Cauthon Despair, o Cavaleiro Prateado, nos deu um ultimato. Você ainda tem 21 horas de prazo para destruir os seus equipamentos de laboratório e destruir todas as nanoculturas. Caso contrário, Mordred atacará. Nós não conhecemos o poder da espaçonave da Mordred, mas tememos que a população de Sverigor esteja em grande perigo. Nós precisamos agir! Rogo vos que desista de seu plano maluco.

— Nós não nos deixamos chantagear por terroristas e seus ajudantes. Saggittonense, a LTL e Camelot nos mostram, claramente, de quem são aliados. Sverigor não admite esse terrorismo. Nós pediremos ajuda imediata ao Galacticum e exigimos que deixe imediatamente nosso sistema solar, caso contrário, usaremos nossa frota espacial contra você.

O holograma dos corretores se apagou. Aurec sentou por um tempo na sala mal iluminada, pensando. Simplesmente não havia tempo hábil para passar esta situação ao Galacticum. Ele não sabia se eles conseguiriam realmente desenvolver um antídoto para a nanocultura. Até então, este vírus poderia causar uma série de danos. Por outro lado tinha que ser evitado que a Mordred cobrisse Sverigor com seu terror. Este Cauthon Despair não lançaria nenhum panfleto sobre a metrópole de Nova Estocolmo, isso estava claro até mesmo para os maiores sonhadores.

Aurec olhou na projeção do espaço sideral ao redor da TAKVORIAN. Ali, em algum lugar, Despair estava com sua espaçonave. Em pouco menos de 21 horas, ele provavelmente seria visto.

Joak Cascal informou pelo intercomunicador.

— Más notícias. Sverigor enviou 25 espaçonaves contra nós. Outras 200 espaçonaves também partiram. Incluindo naves transportadoras.

O saggittonense respirou fundo. Ele não estava pensando em fuga. Pelo contrário, porque a Mordred seria forçada a agir agora. Qualquer nave de transporte poderia transportar a nanocultura consigo.

Aurec correu para a estação de comando. Logo após sua chegada lá, uma nave esférica de 3.500 metros de diâmetro surgiu sobre a órbita de Sverigor. Ela lançou 40 espaçonaves de 500 metros de diâmetro. Seguidas por mais de uma centena de outras naves auxiliares entre 50 e 250 metros de diâmetro. E por uma centena de caças e space-jets.

— A espaçonave é chamada VERDUN — declarou Cascal.

— Tem o nome de uma cidade do estado de França. Naquele lugar houve uma sangrenta batalha na chamada Primeira Guerra Mundial, há mais de três mil anos atrás. Até hoje tem um memorial lá — acrescentou Sanna Breen.

Aurec achava esta excursão na história terrana tão interessante, mas ele tinha outras preocupações. A VERDUN era uma fortaleza voadora. Outras seis espaçonaves de 500 metros se juntaram à frota. 45 couraçados contendo centenas de cruzadores, naves auxiliares e caças espaciais. A VERDUN era mesmo uma pequena frota.

Não demorou muito antes que o fogo fosse aberto contra as 325 espaçonaves sverigornenses. Formando uma barreira de artilharia. As pequenas espaçonaves voltaram imediatamente, enquanto as 25 naves de combate sverigornenses permaneceram a uma distância segura, em órbita.

A VERDUN cessou o fogo. Mas duas espaçonaves menores ainda deixaram a órbita. Elas não foram muito longe. Imediatamente várias dezenas de cruzadores partiram e destruíram as duas naves antes que elas pudessem entrar no hiperespaço.

— Recebemos uma mensagem da VERDUN. É Cauthon Despair — comunicou Quon.

Quase todas as telas da central de comando, mostravam o retrato do Cavaleiro Prateado.

— Os moradores de Sverigor! Seu governo e a autoridade de correção são culpados por crimes graves. Eles querem destruir a Humanidade com um vírus. A Mordred quer impedir isso. Já existe uma proibição de voo. Nenhuma espaçonave tem permissão para deixar o planeta. Nós damos ao governo sverigornense e sua autoridade de correção 20 horas para destruir todas as nanoculturas e instituições de pesquisa, e nos comprovar isso. Após a expiração desse ultimato nós vamos agir e começar a bombardear instituições militares e científicas, bem como todas as instalações da autoridade de correção.

Qualquer espaçonave que passar da órbita será destruída sem aviso prévio.

 

*

 

— Só mais 15 horas — murmurou Cascal, cansado.

Nas últimas cinco horas a flotilha da Mordred iniciou com a interferência dos hiper-rádios. Satélites e estações retransmissoras foram destruídas. Fortes espaciais e sistemas de defesa também foram destruídos. Sverigor era o único planeta habitado no sistema de Malmoe. Assim, as naves da Mordred terão um campo de operação relativamente simples, eles só precisavam bloquear Sverigor.

Aurec e os outros foram reduzidos a figurantes. Eles não podiam fazer nada. A TAKVORIAN não tinha nenhuma chance contra a VERDUN e suas naves auxiliares. A frota sverigornense também era muito fraca. Sua maior espaçonave tinha apenas 45 por cento do diâmetro das grandes naves auxiliares da VERDUN.

Mesmo com o poder de fogo da IVANHOE eles ainda não podiam fazer nada. Provavelmente eles poderiam colocá-la em cheque combinado as naves auxiliares da frota local sverigornense. Mas a VERDUN era gigantesca. Eles não tinham a disposição um número muito maior de grandes naves de combate — nem da LTL nem de Camelot. E o Império de Cristal arcônida provavelmente não viria ajudar. Apesar de ter sido chamado agora, a LTL enviou uma frota de investigação, mas ainda levaria algumas horas ou dias para chegar.

Como último recurso, há uma hora, Aurec tinha transmitido a VERDUN uma mensagem com todas as informações sobre a nanocultura. Ele tinha entrado em contato pedindo que se abstivessem de realizar ações militares e se contentassem com uma operação de bloqueio, enquanto os cientistas trabalhavam em um antídoto.

Mas até agora a TAKVORIAN ainda não tinha recebido nenhuma resposta da supernave de combate da Mordred.

A IVANHOE chegou neste momento no sistema solar de Malmoe. O comandante Xavier Jeamour, a médica de bordo Jennifer Taylor e o oficial de ciências Lorif foram irradiados por transmissor para a TAKVORIAN.

Cascal, Tolk, Aurec e Breen receberam os três da nave-irmã. Sem uma grande troca de formalidades, a médica de cabelos curtos, louros emaranhados e brilhantes olhos azuis iniciou sua análise.

— É um programa biomecânico bem pensado. Nós certamente encontraremos um antídoto para isso, mas poderá levar semanas ou até meses. Mesmo que a Mordred bloqueie as transmissões de hiper-rádio de Sverigor, como já foi dito, há um risco de que eles tomem a iniciativa de uma distribuição da nanocultura e causem danos físicos e psicológicos graves a milhões de pessoas.

— Além de um tratamento médico e um soro, as medidas preventivas seriam uma medida potencial. Um analisador individual poderia detectar a nanocultura em uma verificação — acrescentou o pos-bi Lorif.

Esse conhecimento não nos ajuda muito. Ele não seria o suficiente para apaziguar a Mordred. Aurec amaldiçoou-se. Se ele não tivesse mandado a SAGRITON para casa buscar reforços.

— Continuamente ele enviava mensagens de rádio para o governo sverigornense e a Mordred, para negociarem um acordo. Essa era a única maneira de evitar uma catástrofe — Aurec encerrou a conferência.

Mais eles não poderiam fazer. Não estava em suas mãos, mas nas da Mordred e de Sverigor.

 

11.

O som da Águia

 

Nas últimas horas, Cauthon Despair certamente tinha percorrido alguns quilômetros, enquanto ele caminhava de um lado para o outro na central de comando.

O bloqueio a Sverigor estava funcionando. A menos que muitas espaçonaves não investissem de uma vez em uma tentativa de escapar ou que toda frota local dos sverigornenses atacassem com a sua 360 espaçonaves, eles poderiam impedir que qualquer nave alcançasse o voo no hiperespaço.

Mas o perigo não foi evitado com isso. Eles não podiam guardar Sverigor para sempre. Em algum momento, as frotas da LTL, do Império de Cristal, blues, tópsidas e aconenses poderiam aparecer por ali. Elas seriam demais, mesmo para a VERDUN.

A questão agora era saber se então Despair entregaria Sverigor aos cuidados dos galácticos, ou se a Mordred procuraria uma solução final. Esta decisão cabia não a ele, mas a Rhifa Hun. Há algumas horas Despair havia pedido novas instruções ao líder da Mordred, mas até agora não recebeu nenhuma resposta.

Em vez disso, a TAKVORIAN transmitia continuamente uma oferta de paz à VERDUN. Despair a ignorava. O almirante Kenneth Kolley não compreendia porque a VERDUN não atacava a TAKVORIAN. Despair não queria isso. Ele sentia respeito por Aurec, Joak Cascal, Sandal Tolk e Sanna Breen. De algum modo ele gostava de Sanna Breen. Ela não devia morrer no fogo de um canhão conversor. Esta terrana o fascinava um pouco. Desde Zantra Solynger, nenhuma mulher o tinha deixado tão fascinado, embora ele a tivesse encontrado apenas uma vez. No momento, Despair não tinha sede de vingança, morte ou destruição. No entanto, ele sabia que o ultimato terminaria em 10 horas. Em seguida, as armas falariam.

— Senhor, duas espaçonaves chegaram ao sistema de Malmoe. São a RANTON do número quatro e a HESOPHIA dos dorgonenses — informou o almirante Kolley.

O reforço prometido chegou. Realmente Rhifa Hun foi bem-sucedido em entrar em contato com os dorgonenses. Sua tecnologia era superior à de todos os povos da Via Láctea. Despair já tinha visto isso muitas vezes. Embora a vantagem não fosse de séculos, contudo, militarmente os dorgonenses estavam muito a frente dos galácticos.

— Entre em contato com os dorgonenses. Peça uma audiência com o legado Seamus ou almirante Petronus.

— Sim, senhor!

Poucos instantes depois Kolley voltou com outra mensagem.

— Audiência concedida. Está prevista para ser a bordo da HESOPHIA. O Número Quatro e Rhifa Hun farão parte dela holograficamente.

Despair compreendeu. Ele foi para a sala de transmissores próxima a central de comando e caminhou através do arco-portal cintilante. Quando ele deixou um arco portal de design semelhante estava a bordo da nave-águia dos dorgonenses, ele era esperado por dois oficiais em armadura dourada brilhante. Os dorgonenses, com suas armaduras nobres, capas vermelhas e capacetes, eram como romanos modernos para Despair. Mas usavam armas de energia em vez de espadas e botas espaciais em vez de sandálias.

Atrás dos dois oficiais, que ocupavam o posto dorgonense de decurião6, estava o almirante Petronus. Petronus era um homem forte, idoso e com cabelos grisalhos. O rosto enrugado era dominado por um grande nariz batatudo.

Despair cumprimentou-o com a designação dorgonense Dux. Adequada para o status de um almirante. Na verdade, prefeitos comandavam espaçonaves individuais, mas para a expedição na Via Láctea o imperador dorgonense Thesasian enviou um Dux experiente. Ele era auxiliado pelo legado Seamus, um conselheiro pessoal e confidente do governante. O terceiro no comando era um certo Nersonos, sobrinho do imperador. Despair ainda não tinha se encontrado com ele, enquanto que Seamus e Dux Petronus ele já conhecia de sua primeira reunião no sistema Mashritun, realizada há pouco mais de sete anos.

Dux Petronus e os dois Centrus levaram Despair por um amplo corredor. As paredes eram de cor areia, enquanto o piso estava coberto com um tapete vermelho. Apesar da HESOPHIA certamente ser uma espaçonave militar, ainda assim este convés, pelo menos, era mobiliado muito luxuosamente. Era raro que um galáctico fosse autorizado a entrar em uma espaçonave dorgonense. Despair acreditava que até agora esta honra somente tinha sido concedida à Rhifa Hun e ao coronel Kerkum, além dele. Contudo Despair só entrava geralmente em áreas militares. Este convés da nave parecia ser reservado à elite.

Eles entraram em uma sala ampla. O revestimento do piso era de marmorite branco. No teto era projetado o sistema sverigornense. Sverigor encontrava-se pacificamente no centro da imagem. Despair parou quando viu uma série de estátuas feitas de um material luminoso branco azulado. Algumas delas eram dorgonenses familiares. Presumivelmente, imperadores e guerreiros. Ou divindades alienígenas. Mas uma estátua parecia como se tivesse vinda da Terra. Em um corpo humano musculoso onde estava a cabeça de um falcão.

Hórus, deus do antigo Egito, uma das primeiras civilizações da Humanidade depois da destruição de Lemúria e o afundamento de Atlântida.

A estátua ao lado de Hórus parecia um homem com cabeça de crocodilo. Mais uma vez Despair acreditou que era uma divindade do Egito antigo. Seu nome devia ser Sobek. Isso era estranho. Haveria algo mais por trás disso ou seria apenas coincidência?

— Você gosta de nossas divindades? — perguntou Dux Petronus.

— Eles me fazem lembrar as divindades da Terra.

Petronus deu de ombros.

— Nós nunca estivemos lá. Mas quem sabe onde nossos manhosos deuses e divindades estiveram ao longo dos milênios. Sigam-me, o legado Seamus e o príncipe Nersonos esperam por você.

De repente Petronus parou e fez uma careta.

— Em tudo o que você ouvir, exalte o sobrinho do imperador.

Despair não sabia o que Petronus queria dizer com isso. Eles passaram pelo salão com estátuas e chegaram à sala seguinte. Lá estavam Seamus e Nersonos deitados em espreguiçadeira, comendo e bebendo. Eles assistiam exóticas concubinas dorgonenses, com longos cabelos negros e pele marrom aveludada, dançarem.

Elas rebolavam seus quadris ao som dos tambores e flautas. Despair conhecia Seamus. Um anão com feições angulosas e contornos esguios. Nersonos era gordo e usava uma barba azul. Seus cabelos tinham de comprimento médio e eram desgrenhados. Ele parecia divertir-se e sorria para as concubinas. Então ele se levantou com um gemido e abriu os braços.

— Oh, sim, cante, meu senhor — pediu uma das concubinas e Nersonos recusou-se a ser solicitado duas vezes.

— Oh, o que eu estou fazendo aqui tão longe de casa e de Dom, Oh, sim, nós somos mais de quatro e sufocamos o inimigo pela raiz com crômio.

Despair sentiu um frio na espinha ao ouvir a voz e os versos. Mas o sobrinho do imperador, provavelmente, não estava suficientemente embriagado com vinho. Ele pegou um sintetizador portátil e acariciou as teclas do teclado. Despair não sabia se era realmente uma melodia dorgonense ou ele simplesmente fingia tocar.

Ele recitou o segundo verso de seu épico.

— Sim, o poder da águia é grande – suas asas se levantam,

“em um poço caiu o inimigo profundamente — sua morte está diante dele.”

As concubinas aplaudiram satisfeitas e cantaram encantadas como se fosse pessoalmente ao lendário Zodiac Goradon. Nersonos riu. Então, finalmente, ele percebeu Despair.

— Oh, nós temos convidados. Ah, como ele é engraçado. Um nativo.

Nersonos riu e sentou-se na liteira.

— Diga-me, meu caro Petronus. Ele pode falar?

Despair caminhou em direção a Nersonos. Com satisfação o Cavaleiro Prateado notou que Nersonos fez um pequeno gesto de sua espreguiçadeira. Um sinal de respeito.

— Altezas dorgonenses, a cultura humana tem mais de 50.000 anos de idade. Meu tradutor pode traduzir nosso intercosmo para o dorgonense. Obrigado por essa audiência...

Despair limpou a garganta.

— E por essa música especial.

Nersonos riu e levantou sua taça de ouro.

— Um encantador. Você é o famoso Cavaleiro Prateado de nossos aliados. Bem, bem. Você gostou da minha música?

— Eu nunca ouvi falar dela — Despair disse a verdade. Nersonos parecia feliz com isso. Ele mexeu um lado e para o outro na espreguiçadeira e por fim sentou-se com as pernas cruzadas, tocando algo em seu teclado. Uma música atonal e maçante ecoou do dispositivo musical.

— Agora algo atroz — disse Nersonos e riu.

— Oh, vejam meu falo duro – toda mulher e todo homem completamente extasiado,

“oh, eu estou pronto para meter fundo de uma vez — eu oculto a arma do Cosmo totalmente em sua imundice.

 Meu falo é como uma lança de tachyon — deleite-se com o meu peito másculo tão cabeludo.

Seja minha amante e não resista — você é minha, sei que gosta muito disso.”

— Você compôs isso por si mesmo? — perguntou Petronus hipocritamente.

Nersonos assentiu presunçosamente.

— Adorável — comentou Despair para este poema cruel que superava até mesmo qualquer canção popular e regional. Neste momento, Despair mudou de assunto para a ameaça de Sverigor.

— Ah, sim. Eu não tenho ideia — confessou Nersonos e olhou interrogativamente para Petronus e Seamus. O legado do imperador dorgonense irradiava significativamente mais dignidade do que o sobrinho dele, que quase chegava a decadência. Provavelmente, o imperador o tinha enviado nesta missão, para ganhar experiência e assumir responsabilidades. Talvez fosse uma pequena esperança de que este imprestável se tornasse alguém.

— Nossos cientistas estão estudando esta nanocultura. Interessante e eficaz, entretanto nós já desenvolvemos um campo que destrói qualquer nanorrobô que se aproximar da espaçonave.

O legado parecia entediado e disse quase casualmente. Esta seria a solução. Se encontrassem um antídoto para a nanocultura, poderiam erradicar toda ela de Sverigor. E Despair poderia se abster de um bombardeio.

— Nós poderíamos usar esta radiação ou este campo em Sverigor — Despair propôs isso.

— Nós ainda não testamos os efeitos colaterais. Mas como eu fiquei sabendo, há outro plano para Sverigor.

— Qual? — perguntaram Despair e Nersonos simultaneamente. O sobrinho do imperador acolheu-a com uma risadinha. Ele correu o polegar sobre os lábios.

— Oh, poderoso cavaleiro da Via Láctea. Nós provavelmente somos almas gêmeas. Você canta bem? Talvez formaremos um dueto? Ou uma prosa das glórias de DORGON e de mim mesmo?

— Perdoe, mas minha voz seria um insulto para os seus ouvidos. Eu não mereço a honra de misturar a minha música em seu talento vocal divino.

Nersonos estava satisfeito como uma criança e deslizava para cima e para baixo na espreguiçadeira, rindo. Aparentemente, ele não percebeu a zombaria nas palavras de Despair.

Então, finalmente, os hologramas de Rhifa Hun e do Número Quatro apareceram. Como sempre, eles estavam distorcidos. Ninguém se incomodou com isso. Despair curvou-se aos seus senhores e mestres.

— Quais são as suas ordens?

— Nós devemos fazer de Sverigor um exemplo. Ainda que fosse possível tornar a nanocultura permanentemente inofensiva, no entanto, os sverigornenses poderiam desenvolver uma nova geração. Este mundo com seus robôs de correção são um perigo para a Humanidade. Eles devem ser destruídos.

Despair refletiu sobre as palavras. Rhifa Hun queria dizer com isso para destruir todo o planeta? Ele não podia entender realmente isso.

— Vivem dois bilhões de seres neste mundo — ponderou Despair.

— Escória — disse unicamente o Número Quatro.

— Eu compartilho a visão do Número Quatro — disse Rhifa Hun. — O tempo é curto. Esse status quo não vai durar para sempre. Espaçonaves da LTL, dos blues, dos tópsidas, dos saltadores, dos aconenses e dos arcônidas estão a caminho. Até lá, a operação deve estar concluída.

Hoje é um grande dia, meu caro Despair. Nós libertaremos a Via Láctea de vários criminosos e inimigos dos seres humanos. É para o bem da Humanidade!

Os ruídos do mastigar de Nersonos interrompeu este cenário surreal. Aparentemente, o dorgonense pouco se importava com os cerca de dois bilhões de seres vivos dali. Combater criminosos e agentes, bem como soldados era uma coisa, mas dois bilhões de seres vivos, a maioria civis. Nesse meio tempo Nersonos enfiava um peito de ave em sua boca. Ele lambeu ruidosamente seus dedos gordurosos. Os sons altos da mastigação deixaram Despair nervoso.

— Mestre, não seria melhor cooperar com os povos da Via Láctea? Se mantivermos o bloqueio até que outras espaçonaves chegarem, talvez nós possamos perder a reputação de terroristas.

Rhifa Hun soltou uma maldição.

— Você ouviu minha ordem, Despair! Sverigor será destruído!

— Eu fiz um ultimato aos sverigornenses. Eles têm 10 horas. Sinto-me vinculado a ele. Poderíamos dar-lhes uma chance para uma evacuação neste momento.

— Mas eu não me sinto ligada a ela — disse Rhifa Hun claramente. — Quem provavelmente se retiraria em primeiro lugar? As gangues de criminosos, a elite fanáticas, toda a escória. E o resto do povo não são melhores que eles. Eles não deveria viver neste mundo renegado. Minha decisão é final. Você se sente incapaz de cumprir as minhas ordens?

Despair fez uma careta.

Uma resposta errada também poderia significar o fim para ele. Rhifa Hun parecia duvidar da lealdade e força de Despair. Despair ficou surpreso com sua própria hesitação. Naturalmente, os sverigornenses eram culpados e mereciam a punição. A destruição da autoridade de correção e todas as instalações militares e biomecânicas, e o desmantelamento dos grupos criminosos — isso seria suficiente. Talvez houvesse algumas centenas de milhares de mortos ali, mas não dois bilhões!

— Por que não destruiu a espaçonave camelotiana? — perguntou o Número Quatro. — Minha assassina me disse que você também poupou a vida de uma camelotiana e seu aliado. Você está doente, Despair?

As palavras do Número Quatro eram tão desafiadoras quanto as de Rhifa Hun. E isso diante dos dorgonenses. Mas Nersonos estava bastante ocupado com sua ave e concubinas. Seamus estava entediado apreciando seu vinho. Apenas Petronus acompanhava a conversa com cuidado. O Dux dorgonense parecia confuso.

— Você vai cumprir o seu dever? — perguntou Rhifa Hun.

Despair não sabia o que dizer. Destruir planetas inteiros, ele não faria isso! Isso não era o que ele pretendia.

Ele retesou o corpo e colocou-se na posição de sentido.

— Eu sou de opinião que a destruição de Sverigor é para não terranos, mestre! Eu punirei sem piedade os culpados, mas não erradicarei todo um povo!

— Lamentável — disse Rhifa Hun. — Nós podemos pedir aos nossos aliados dorgonenses para que tratem deste assunto delicado. O Número Quatro executará o plano. A VERDUN cuidará da TAKVORIAN, da IVANHOE e da frota sverigornense. Eu exijo a extinção de Sverigor em 60 minutos.

“Estes antirreprodução humana devem queimar em uma bola de fogo!”

O holograma de Rhifa Hun se apagou. Despair estava estupefato.

— Eu espero que possa contar com você, pelo menos, neste assunto. Mantenha as costas da RANTON livre.

Com esta ordem a holografia do Número Quatro se apagou. Neste caso Despair era subordinado, mas Despair não ficaria surpreso se fosse rebaixado. Talvez Rhifa Hun o matasse. Porque aos seus olhos Despair tinha falhado. Despair ficou com os joelhos bambos. Ele sentou-se ao lado de Nersonos. Este lhe ofereceu um pedaço de carne.

— Com fome?

Despair balançou a cabeça ligeiramente.

— Seu novo amigo, oh príncipe dos príncipes, não gostaria de destruir o mundo dos bárbaros.

— Oh, como doce. Ele é tão resoluto, — disse Nersonos e riu. — Certa vez eu estive nessa situação. Tivemos uma praga de ratos em nossa casa de verão. As pequenas coisas eram tão doces, mas se multiplicavam assustadoramente. Vetter Carigul queria matá-los todos e eu primeiramente não, mas precisava ser feito. Lamentavelmente. Eu derramei uma lágrima.

Despair teve o suficiente. Ele se levantou. Os dorgonenses não se importavam com o destino de um planeta galáctico. Eles estavam ali mais ou menos como observadores, ou para se divertirem. Nersonos pelo menos. Despair estava certo de que Seamus e Petronus observavam e analisavam toda a situação. Eles estavam aprendendo sobre os galácticos e seus padrões de comportamento.

— Perdão, nobres dorgonenses. Eu preciso cumprir o meu dever. Fiquem longe de Sverigor, por favor.

Despair curvou-se e saiu da sala de audiências. Ele encontrou sozinho o caminho para o transmissor e voltou a VERDUN. Lá o almirante Kolley o aguardava com o rosto pálido.

— Você conhece as novas instruções? — perguntou Despair.

O almirante confirmou.

— Vamos deixar isso para a RANTON. Vamos garantir que nenhuma nave de combate ataque a RANTON.

— E os camelotianos?

Despair hesitou. Ele conhecia a ordem.

— Eles deverão testemunhar este dia trágico — disse Despair e deixou Kenneth Kolley. Ele precisava ficar sozinho agora.

 

12.

O fim de Sverigor

 

O ataque começou.

As grandes naves esféricas de 500 metros de diâmetro distribuíam-se em um determinado padrão ao redor de Sverigor. Entre elas flutuavam os cruzadores de 250 e 100 metros. Os caças de combate, microcorvetas, corvetas e space-jets estavam prontos para o primeiro bombardeio.

— Vamos — disse Despair voltando-se para Kenneth Kolley. Este retransmitiu a ordem. Primeiro as naves esféricas de 500 metros abriram fogo e bombardearam a superfície com os canhões conversores. Imediatamente os campos defensivos sobre as grandes cidades lampejaram. Os fortes espaciais, os caças de defesa e toda a frota de 360 espaçonaves sverigornenses partiu para o ataque.

Embora a Mordred estivessem em número menor, no entanto, não era inferior em força de combate. Despair ordenou que a VERDUN fosse para a linha de frente. Ela mergulhou na órbita e iniciou seu fogo mortal. Ela não só usava os canhões conversores — com bombas conversoras, ela podia atacar qualquer alvo desprotegido de um campo defensivo, a vários milhões de quilômetros de Sverigor. Os canhões conversores formaram um anel de fogo solar nos vetores de voo, enquanto disparava no modo de intervalo com os canhões CARC rompendo os campos defensivos das naves inimigas. Além disso, a gigante disparava com todos os sistemas de armas convencionais. Um inferno ocorreu na órbita de Sverigor. As espaçonaves vinham como cordeiros para o abate. Eles não tinham nenhuma chance contra o poder de fogo do couraçado de 3.500 metros da Mordred.

Em pouco tempo foram destruídas 27 espaçonaves. As demais unidades da Mordred contribuíam para uma batalha que se deslocava lentamente para fora da órbita. A RANTON do Número Quatro permaneceu próxima a VERDUN.

— Senhor, os traidores camelotianos estão nos chamando pelo rádio novamente — informou Kolley.

— Ignore — disse Despair baixinho.

O Cavaleiro Prateado observava a batalha desigual. A cada segundo mais espaçonaves sverigornenses eram destruídas ou seriamente danificadas. Algumas espaçonaves tentaram furar o bloqueio, mas elas não foram muito longe.

Apenas a nave-águia HESOPHIA permanecia tranquila, fora da ação. Os dorgonenses observavam. Mas a TAKVORIAN e a IVANHOE ainda permaneciam em suas posições, cerca de 10 milhões de quilômetros de Sverigor. O que eles poderiam fazer? Qualquer ataque contra a VERDUN, RANTON e HESOPHIA seria loucura e semelhante a uma missão suicida.

Hoje seriam necessárias centenas de naves melhores equipadas para deter a Mordred. Despair mudou para a transmissão da mira das bombas. Elas mostraram a perspectiva de voo das ondas de assalto nas cidades sverigornenses. Os campos defensivos eram levantando, enquanto a frota foi ficando cada vez menor.

Os destroços das espaçonaves precipitavam-se para a superfície, deixando um rastro de destruição, onde não havia campos defensivos ativados. Pequenas aldeias e assentamentos foram destruídos. Os centros turísticos foram atingidos. Certamente este era o último feriado para os frequentadores de Sverigor.

As câmeras das bombas capturavam toda a tragédia dos seres vivos nos assentamentos menores. De forma clássica, as cargas mortais eram descarregadas em queda livre. Casas e ruas inteiras ficavam em chamas. Desesperadas, criaturas corriam na frente das paredes de fogo. Tempestades de fogo se formavam. Turbilhões gigantes de fogo rugiam através dos assentamentos e florestas em chamas de Sverigor.

Mas o pior ainda estava por vir.

Em 21 minutos, a frota sverigornense foi aniquilada. 360 espaçonaves foram destruídas ou transformadas em sucata.

— Concentrem o fogo nos campos defensivos das grandes cidades — ordenou Despair.

— Senhor, duas espaçonaves camelotianas se aproximam de nós.

— Como eles ousam? Isso era puro suicídio. Despair tentou protegê-las, mas agora ele não podia fazer nada para elas.

*

 

A cada espaçonave sverigornense abatida, a raiva interna de Aurec aumentava. Mas isso não ocorria só com ele, mas também com os outros. Esta inação era um truque cruel do destino. Eles assistiam e contavam as espaçonaves destruídas.

Uma luta direta contra a VERDUN e contra a outra espaçonave chamada RANTON de 1.500 metros de diâmetro, como também contra a recém-surgida nave-águia desses misteriosos dorgonenses e as numerosas naves auxiliares seria uma missão suicida.

Contudo, com a concordância de Xavier Jeamour e Aurec, Joak Cascal deu a ordem para se aproximar das espaçonaves da Mordred.

Eles precisavam ganhar tempo e aguentar a espaçonave Mordred até a chegada das espaçonaves da LTL, do Império de Cristal e de outras raças galácticas.

Provavelmente era apenas um teste estúpido, mas era melhor do que não fazer nada.

A IVANHOE respondeu.

— Senhor, nossos sensores mostraram que dois discos-leka deixaram a RANTON. Eles estão carregadas com bombas de Árcon — esclareceu o pos-bi Lorif.

Cascal informou Aurec sobre as bombas de Árcon. Elas eram capazes de destruir um planeta inteiro em poucas horas. Imediatamente a IVANHOE e a TAKVORIAN se prepararam para formar uma barreira de fogo dos seus canhões conversores, para impedir a aproximação dos space-jets, parecidos com naves auxiliares, em Sverigor.

— Fogo ofensivo? — perguntou Tolk.

Cascal hesitou por um momento, então balançou negativamente a cabeça. Ele não poderia mais salvar Sverigor, além disso, a ex-colônia do Império Solar, provavelmente, era a grande culpada pelo seu destino.

— Não, isso seria suicídio.

Além disso, já era tarde demais. As espaçonaves em forma de disco já estavam perto da superfície e descarregando sua carga mortal.

O fogo nuclear começou.

— Recuem — disse Cascal quase casualmente, mas não era um comando real, porque a VERDUN começou a abrir fogo sobre a IVANHOE e a TAKVORIAN com seus canhões conversores.

Elas se afastaram de Sverigor. No entanto, acompanharam de perto tudo o que acontecia através de suas sondas.

A hiper-radiação dura era liberada durante a ignição da bomba de Árcon pela reação dos núcleos atômicos dos elementos estimulados hiperenergeticamente. Eles eram fundidos e liberavam a mesma radiação. Após isso surgia o efeito bola de neve, criando uma reação em cadeia que salta de núcleo atômico para núcleo atômico em quase tempo zero.

O destino de Sverigor estava selado. Nada mais podia apagar o fogo atômico. Paredes de fogo de quilômetros de altura rolavam sobre o planeta e destruíam essa natureza tão bela. Árvores eram queimadas como fósforos, lagos evaporavam e assentamentos eram arrancados pela explosão antes do primeiro fogo chegar até eles.

As cidades ainda se mantinham em pé, mas os campos defensivos não resistiriam por muito tempo, especialmente, porque todo o planeta entraria em colapso em algumas horas.

As espaçonaves Mordred retraíram para RANTON e VERDUN. Alguns voltaram e perseguiram espaçonaves sverigornenses que tentavam escapar do inferno de fogo.

Aurec teve que admitir que era impossível negociar com a Mordred. Todas as solicitações para uma solução razoável tinha sido em vão. Assim como os sverigornenses, a Mordred só falavam de objetivos elevados — no final contava apenas a completa destruição do inimigo. Assim mesmo, tentamos dissuadir os sverigornenses. Não tão brutalmente como os Mordred, mas de uma forma mais refinada, mais lentamente e mais limpa. A ideologia deles era a mesma: a extinção de tudo o que não se encaixa em suas concepções.

Como era irônico que só através deste plano agressivo dos sverigornenses a Mordred, que provavelmente era o exemplo paradigmático da obscuridade terrana para os sverigornenses, tomou a decisão precipitada de extinguir Sverigor. Apesar do plano dos sverigornenses ser tão cruel, ninguém tinha o direito de destruir um povo inteiro por isso.

Novamente a TAKVORIAN enviou o pedido à VERDUN para poupar, pelo menos, os sobreviventes. No entanto, Aurec não tinha muita esperança nisso. O choque da destruição de um planeta inteiro, em companhia de uma civilização inteira, afetou profundamente o saggittonense. Ele observou os rostos tristes e irritados. O terror da Mordred chegou a uma nova dimensão.

 

*

 

O fogo solar escaldante e destrutivo sobre Sverigor refletia na viseira do Cavaleiro Prateado.

Dois bilhões de criaturas morreram no inferno de fogo. O incêndio nuclear desencadeado por duas bombas de Árcon transformou o planeta, gradualmente, em um pequeno sol. Os primeiros campos defensivos das cidades começaram a piscar.

Novamente a TAKVORIAN chamou a VERDUN pelo rádio e pediu para poupar os sobreviventes. Centenas de espaçonaves pairavam na órbita do planeta.

— Verifiquem a existência de nanoculturas nas espaçonaves de refugiados. Deixe passar aquelas que não têm nenhuma a bordo. As outras deverão ser destruídas — ordenou Despair.

Já houve muito derramamento de sangue. Mas se as nanoculturas fossem importadas pelos fugitivos para a Galáxia, esta ação cruel teria sido inútil.

Então ele teve que testemunhar à agonia do planeta. As naves de refugiados sverigornenses alinharam-se em volta da IVANHOE e TAKVORIAN. O Número Quatro protestou furiosamente, mas Despair deixou claro que a RANTON iria sozinha para a batalha, pois isso não estava de acordo com as ordens de Despair. Assim, a RANTON limitou-se aos bombardeios adicionais a Sverigor para enfraquecer os campos defensivos das cidades.

— Os dorgonenses enviaram-nos os parabéns pela operação bem-sucedida — relatou Kenneth Kolley.

Casualmente Despair registrou que a HESOPHIA desapareceu no hiperespaço. Aparentemente, os dorgonenses tinham testemunhado o espetáculo mortal por tempo suficiente.

— Concentrem o fogo em Nova Estocolmo — foi o próximo comando. Milhões de gigatoneladas de TNT choveram dos canhões conversores no campo defensivo, que, além disso, tinha de afastar o fogo nuclear. O colapso não foi visível entre as centenas de explosões e aspirais de fogo, mas o indicador tático relatou o sucesso. Nova Estocolmo desapareceu dentro de alguns instantes. As instalações subterrâneas da autoridade de correção não resistiram ao fogo.

As instalações de pesquisa foram destruídas. O computador central da autoridade de correção também. O perigo foi finalmente evitado. Demorou uma hora até que todos os campos defensivos sobre as cidades se apagassem e toda a superfície do planeta fosse envolvida pela incandescência.

17 das 534 naves de refugiados foram destruídas com a nanocultura. As demais foram salvas pela IVANHOE e pela TAKVORIAN. Despair não causou a extinção de Sverigor. Mesmo agora que não havia mais vida em Sverigor. Muitos provavelmente tinham sobrevivido? Talvez, dois milhões? Talvez Rhifa Hun estivesse certo. Não seriam os melhores e inocentes de Sverigor. Esses provavelmente não teriam chance de se salvar.

Despair deu ordem para se retirar. Na VERDUN ninguém estava em um clima festivo. Havia uma culpa demasiadamente grande sobre eles. Sim, eles tinham salvado os terranos de um vírus perigoso, mas a que preço...

 

Epílogo

 

27 de outubro de 1290 NCG foi uma data sombria. Porque naquele dia uma civilização inteira foi exterminada. O planeta Sverigor e seus quase dois bilhões de habitantes deixaram de existir — queimados em um grande incêndio que consumiu tudo.

O planeta Sverigor foi um lembrete para onde a intolerância, o fanatismo e a obsessão conduziam. A sociedade sverigornense não teve uma ficha irrepreensível. Ela planejou a sujeição psicológica completa de todos os terranos. Em sua loucura pela autodestruição da espécie humana, eles queriam roubar de cada indivíduo humano o direito à liberdade, à liberdade de pensamentos e sentimentos.

Sverigor foi transformado de um paraíso num inferno. Mas nem um único ser vivo merecia esse destino. Os responsáveis deveriam ter sido levados perante um tribunal regular e os cidadãos de Sverigor deveria ter direito a um novo começo sem a autoridade de correção.

Mas o extremismo saltou sobre o vizinho. As motivações e os objetivos da Mordred eram tão diferentes — nem para a Mordred nem para Sverigor a vida realmente contava. No entanto, a Mordred foi mais eficaz de uma maneira pérfida e cruel. Ela agiu de forma eficiente, destrutiva, intransigente.

A Mordred encontrou a legitimidade para este genocídio, no fato de que, com isso, eles impediriam o controle da mente de bilhões de terranos.

Mas o propósito não justifica os meios. A população de um planeta inteiro foi extinta em poucos minutos. Somente alguns milhões sobreviveram ao armagedom sverigornense. Isso me faz lembrar de um tempo anterior a Perry Rhodan, a Guerra Fria, em que o medo da “bomba” prevalecia, o medo de uma guerra nuclear e do holocausto nuclear da Humanidade.

Na ocasião foram feito o lançamento de bombas atômicas durante a Segunda Guerra Mundial sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. O raciocínio do lançador das bombas, o ex-Estados Unidos, era salvar a vida de milhões de soldados americanos.

Mas os lançamentos causaram a morte de 250.000 pessoas. Muitas sofreram das sequelas de queimaduras e da radiação por um longo tempo. Os bombardeios produziram uma série de mutações em seres humanos. E por últimos, mas não menos importante, estes mutantes mais tarde serviram no Exército de Mutantes de Perry Rhodan. Mas este foi apenas um efeito colateral.

O que era moralmente justificado? Matar alguns para salvar muitos? Onde acabará essa insanidade? O sacrifício de uma galáxia para salvar outras duas? O bem-estar de poucos seria sempre menor do que o bem-estar de muitos?

De fato, nos tempos do Império Solar também houve o emprego questionável da bomba de Árcon. Talvez eles pudessem ter sido evitados com um pouco de boa vontade.

Dois bilhões de vítimas civis são um número cruel. Certamente mais seres teriam morrido, se a autoridade de correção pudesse realizar seu plano. Mas considerar a Mordred como um salvador, no entanto, não era apropriado. Porque a Mordred não desejava nenhuma outra opção. Eles simplesmente precisavam manter o bloqueio e esperar pela chegada a Sverigor das espaçonaves da LTL, do Galacticum e de Árcon.

Mas a vida de dois bilhões de sverigornense não tinha valor para Mordred. Eles não valiam o esforço e o risco para procurar uma alternativa.

Mas a mesma culpa por esta tragédia tem a autoridade de correção e aqueles fanáticos sverigornenses que a fundaram e apoiaram. Eles voluntariamente arriscaram a morte de sua própria população ou talvez foram muito negligentes para imaginar as consequências de suas ações

E como no caso da Mordred, a vida dos outros era completamente indiferente para eles. Neste caso, os seres humanos na Via Láctea.

Alguns milhares de terroristas da Mordred tinha aproveitado um plano cruel de alguns milhares de fanáticos sverigornenses como uma oportunidade para mandar bilhões para uma morte sem sentido.

Como tantas vezes na história do Universo uma minoria tinha decidido sobre a vida e morte de uma maioria. Os extremistas da Mordred e a autoridade de correção dos sverigornenses fingiram que queriam melhorar a Galáxia e até mesmo salvá-la. Mas eles só trouxeram o desastre e enviaram por sua maneira egoísta e cruel quase dois bilhões de seres para a ruína.

Hoje era um dia negro para a Via Láctea. Oremos pelos sverigornenses. Nós lamentamos pelos sverigornenses. E Isso nos deixa uma advertência de que o fanatismo e o extremismo pode se esconder em todos os lugares. Ela ocorre em muitas facetas e com isso se orgulha de lutar até mesmo pela tolerância, liberdade e paz. Mas quem o segue, tem seu destino selado. Precisamos estar vigilantes e não podemos ficar preso em sua rede de intrigas. Nós precisamos permanecer fiéis aos nossos princípios, a nossa moral e a nossa moralidade, para não nos tornarmos como nossos inimigos. Nós simplesmente devemos ser melhores e verdadeiros com nós mesmos, para removermos da Galáxia o terreno fértil para tais eventos.

Jaaron Jargon

 

FIM

 

O planeta Sverigor foi destruído pela Mordred e seus aliados dorgonenses. Quase dois bilhões de seres vivos perderam suas vidas. No próximo volume mudaremos do nosso terror galáctico para a distante galáxia Shagor. CAVALEIROS DAS PROFUNDEZAS é o título do volume 15.

 

COMENTÁRIO

 

O presente romance de Nils é a revisão completa do antigo número 6 - “Morte sobre Sverigor”, o tempo também é o mesmo da fonte.

Leitores antigos da série Dorgon vão constatar que Nils reescreveu totalmente o romance e delineou uma linha completamente nova para a estória.

No romance, vários níveis de ação já foram abordados, que só estarão disponíveis mais tarde no centro da saga da luta dos cosmocratas pelo futuro do universo. Com a quimera humano-kartanin Shahira, ou da kartanin Sha-Hir-R'yarl, um novo personagem foi introduzido, o que, já posso revelar aqui, continuará a desempenhar um papel nos episódios finais da série.

Mas voltando ao último romance.

Os eventos mostrarão ao público galáctico, pela primeira vez, o verdadeiro poder da organização terrorista Mordred. Após Sverigor Camelot e também a LTL devem reconhecer que o potencial de poder da Mordred vai muito além de uma organização criminosa comum. Especialmente as duas naves de combate de grande porte a RANTON e a VERDUN mostram que a organização possui recursos consideráveis. Além disso, fica evidente que, aparentemente, com os dorgonenses uma força extragaláctica apoia a Mordred.

Pelo menos a partir de agora, deve ter ficar claro à LTL que uma luta contra a Mordred só será possível através da cooperação com Camelot.

Agora, só os volumes futuros mostrarão se este conhecimento penetrou na mente da Administradora da LTL, Paola Daschmagan.

 

*

 

Para mim foi interessante à ideia de Nils, ironicamente, a Mordred com toda a sua abordagem intransigente, que poderia ser descrita como genocídio, salvou toda a raça humana de um imenso perigo. A abordagem humanitária de Aurec e Cascal (que, aparentemente, já está ligado ao espírito da “humanidade moderna”), em todo o caso, não teria sido capaz de excluir o risco de que a autoridade de correção pudesse desenvolver as nanoculturas ou colocá-la em circulação.

Isso levanta a questão, como Perry Rhodan ou Atlan teria agido. A história do “antigo” Império Solar tem alguns precedentes significativos em que o então Administrador-Geral Perry Rhodan não teria refugado em eliminar o perigo das nanoculturas de Sverigor com a “Ultima-Ratio7 — a bomba de Árcon, como a Mordred fez. Exemplos na história do “Império Solar” só tinham ocorrido em 1984 DC, quando foi destruída a lua Laros que orbitava o planeta Gom e em 2004 DC, quando foi destruída a lua de Gleam, chamada Siren. Em ambos os casos mundos habitados foram destruídos, o que significa, por exemplo, o genocídio dos gleamorenses em Siren.

Mas também da história recente da LTL é conhecido o uso de uma bomba de Árcon contra um mundo habitado.

Neste contexto, potencialmente, o genocídio em Sverigor seria relativizado, porque só assim foi possível assegurar que o perigo mortal para os descendentes dos lemurenses na Via Láctea causado pelas nanoculturas foi finalmente eliminado.

Como resultado desses eventos pode-se afirmar que os bilhões de sverigornenses deviam pagar o preço que a autoridade de correção, que mesmo diante da ameaça representada pela frota da Mordred, prosseguiu em seu plano de destruir a identidade genética dos povos descendentes dos lemurenses da Via Láctea, o que seria equivalente a um genocídio dos descendentes de Lemuria de toda a Galáxia.

Para concluir as minhas considerações, gostaria de citar a seguinte citação, livremente baseada em K. H. Scheer8:

— Homo homini lupus: o homem é o lobo do próprio homem!

Jürgen Freier

 

GLOSSÁRIO

 

Sverigor


Mapa mundial de Sverigor por (C) Stefan Wepil

Sverigor era uma colônia da LTL, fundada em 2569 do calendário cristão, ainda no tempo do Império Solar, por emigrantes suecos. Portanto, este mundo tinha um toque do Norte da Europa. Sverigor ficava no sistema de Malmoe, há 1.978 anos-luz do Sol. Seu sol era uma estrela amarela de tamanho médio. O sistema tinha outros sete planetas, mas apenas Sverigor era adequado como um mundo habitável. A gravidade era de 0,93 gravo, o diâmetro era 10.867 km e a temperatura média nas regiões habitadas era de apenas 10 graus Celsius.

A capital do mundo com dois bilhões de habitantes era chamado Nova Estocolmo e oferecia um lar para quase nove milhões de galácticos, outras cidades foram Nova Trelleborg, Nova Gotemburgo ou Nova Malmoe.

Este planeta era premiado com uma natureza impressionante. Sverigor era um destino popular, apesar de nos últimos 50 anos, ter mantido uma atitude negativa em relação a cidadãos da LTL e do Império de Cristal. No início do século 13, finalmente, Sverigor se separou da LTL e desenvolveu um movimento contrário aos blocos de poder dos seres humanos. Revoltados com a política nacionalista e o Primeiro Terrano Buddico Grigor e o estabelecimento de propagandas no Império de Cristal arcônida de Sverigor como mundo mais aberto e diversificado da Galáxia. No entanto, os extremistas tomaram o controle e estabeleceram uma autoridade de correção totalitária — uma inteligência artificial — com o objetivo de criar um mundo sem a atual forma dos seres humanos. A sociedade e as elites sverigornenses eram profundamente convencidos de que os seres humanos eram a raiz de todo mal.

Em outubro de 1290 NCG Sverigor era o objetivo da Mordred. Quando a Mordred ouviu falar de um plano dos sverigornenses para extinguir a Humanidade por meio de uma nanocultura biomecânica ao longo de gerações, o Número Um Rhifa Hun decidiu, contra a vontade de Cauthon Despair, destruir o mundo com dois bilhões de seres vivos. Sverigor foi destruído por meio de bombas de Árcon. Houve apenas alguns milhões de sobreviventes.

 

HESOPHIA

A HESOPHIA é uma nave-águia do Império Dorgon. A HESOPHIA corresponde a uma nave-águia de classe média. Tem a forma semelhante a uma ave de rapina. O casco conhecido da nave-águia é formado por um cilíndrico de 900 metros de comprimento. Aparentemente, na parte superior da fuselagem havia cabine uma forma de cunha. A largura era de aproximadamente 150 metros. Duas asas poderosas estavam ligadas aos lados do corpo principal. Ela tem uma extensão total de 1.200 metros.

Seu comandante é o Dux (almirante) Petronus. Como proeminentes observadores estavam a bordo o legado imperial Seamus e Nersonos, o sobrinho do imperador.

 

Nersonos


O dorgonense Nersonos por (C) Gaby Hylla

Nersonos é um dorgonense. Sua idade é desconhecida. Ele é o sobrinho de Thesasian, o atual imperador. Nersonos tinha estatura baixa, usava uma barba azul e cabelos azuis emaranhados. Ele é um dos observadores da expedição dorgonense na Via Láctea e aliado da Mordred. Os planos exatos dessa força misteriosa são desconhecidos. Em sua primeira reunião em 27 de outubro de 1290 NCG, Nersonos aparentou ser decadente para Cauthon Despair. Aparentemente, Nersonos se via como os grandes e talentosos artistas, cantores e poetas.

 

Petronus

O Dux Imperial (almirante) é o comandante da HESOPHIA e da expedição dorgonense na Via Láctea. Ele era um homem forte, seu rosto enrugado era dominado por um grande nariz batatudo. Muito mais sobre Petronus atualmente é desconhecido, exceto que ele provavelmente é um merecido e experiente almirante dorgonense.

 

Sha-hir-R'yar (terrano: Shahira)


A assassina Sha-Hir-R’yar por (C) Roland Wolf

Shahira é uma quimera do sexo feminino com genes humanos e kartanins que é usada pela Mordred como assassina. Dentro da hierarquia da Mordred ela tem uma alta classificação, uma vez que é subordinada diretamente apenas ao misterioso Número Quatro e, naturalmente, ao Número Um. Mesmo o Cavaleiro Prateado Cauthon Despair, Número Dois não tem autoridade direta sobre ela.

São desconhecidas quaisquer informações adicionais.

 

Assassina de planeta, arma de destruição em massa e genocida de planetas inteiro

As superpotências galácticas do século 13 NCG tem um arsenal de armas com o qual poderiam destruir planetas inteiros.

No conhecimento público galáctico especialmente a bomba de Árcon era classificada como uma “assassina de planetas”. No entanto, esta abordagem é incompleta, por que armas “convencionais” como bombas de fusão pesadas, bombas gravitacionais ou canhões intervalares e de impulso também podem ser usadas para destruir planetas inteiros.

São usadas, no século 13 NCG, bombas de fusão pesadas com calibre de até 6.000 gigatoneladas, as quais pertencem ao armamento padrão das naves mais pesadas da LTL e do Império de Cristal, tem um efeito devastador sobre o ecossistema dos planetas atacados, com efeito equivalente de uma bomba de Árcon para a população afetada.

Em ambos os casos, o princípio de efeito da arma é transformar o planeta num inferno atômico e, portanto, destruir toda a vida. A única diferença entre os dois sistemas de armas é que na bomba de Árcon não só a superfície do planeta é transformada pelo fogo solar desencadeada em um inferno atômico, mas primeiro todo o planeta é inflamado artificialmente como um sol, e, em seguida, devido à baixa gravidade há uma fuga da nuvem de plasma para o espaço interplanetário. Para os seres, o resultado no final é o mesmo: eles evaporam em um holocausto nuclear.

 

 Nota do revisor: Muito provavelmente uma arma como a Intercomb-Toser de Tostan, uma combiarma totalmente automática, puramente mecânica, sem componentes elétricos ou positrônicos. Com ignição puramente mecânica.

 Nota do revisor: Para quem não se lembra, os uniformes e trajes espaciais da frota solar eram sempre verde-limão.

 Nota do revisor: Aparentemente, os nomes juelziishs são “derivados” das línguas turcomanas, pelo menos em Dorgon. Assim, nosso herói, Ueruebryn, é o “Estou cansado”, em alusão a um “basta” na cultura terrana...

4        Nota do tradutor: os vermes Muurt são considerados uma lendária iguaria na cozinha dos blues. Eles são raros e caros. No entanto, é estranho que nenhum blue conhece alguém, em particular, que não comeu pelo menos uma vez um verme Muurt.

5        Gadget é um equipamento que tem um propósito e uma função específica, prática e útil no cotidiano. São comumente chamados de gadgets dispositivos eletrônicos portáteis como PDAs, celulares, smartphones, leitores de MP3, entre outros. Nota do tradutor.

6        Nota do tradutor: decurião (em latim: decurio), era o oficial de cavalaria do exército romano que comandava um esquadrão de aproximadamente 30 homens.

 Nota do revisor: Diz-se que o Direito Penal é a ultima ratio, ou seja, é o último recurso ou último instrumento a ser usado pelo Estado em situações de punição por condutas castigáveis, recorrendo-se apenas quando não seja possível a aplicação de outro tipo de direito, por exemplo, civil, trabalhista, administrativo, etc. Mas, aqui no romance, inequivocamente deve-se estar falando sobre “ultima ratio regum” cujo significado é “última razão dos reis”. Um termo utilizado em circunstâncias de ataques inimigos em que só se utilizaria os canhões em último caso. Ou seja, somente se as conversas na tentativa de convencer o inimigo a travar os ataques não fossem eficazes.

 Nota do revisor: K. H. Scheer pode ter usado essa frase, ou algo parecido… Mas, essa é uma sententiae criada por Plauto (254-184 AC.) em sua obra Asinaria, mais tarde sendo popularizada por Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVII.